Nessa
limpeza que costumamos fazer a cada final de ano, encontrei uma foto de meu
filho com um olhar ao mesmo tempo fascinado e incrédulo diante do “papai Noel" numa festa da família. Ele, na sua pureza de pequenino, sempre acreditara nele.
Agora estava ali, diante de seus olhos... Era “seu” pai. Foi divertido e
frustrante. Mas então...
Finalmente,
depois de muitos anos, estou liberada da azáfama das festas natalinas. Filhos crescidos
e debandados, já não preciso mais correr pra lá e pra cá em busca de presentes,
perus, pernis e rabanadas. Já não preciso daquele pinheiro cheio de bolas e
coisas parecidas que a mim nunca me disseram nada.
A
época de Natal sempre me trouxe um período de depressão. Quando tudo puxa para
fora, minha alma puxa para dentro, para a meditação, para a solidão. Preciso me
recolher, mas tenho que preparar a árvore, ceias, presentes, roupas novas, tudo
que a minha família, inspirada pela Santa Mídia, julga essencial para uma noite
de Natal. Então todos se reúnem na casa de um dos irmãos.
Mas
nunca foi tão simples assim. Havia aqueles que saíam de última hora, em busca
de presentes e comidas e chegavam depois de meia noite, esbaforidos, cansados e
frustrados porque perderam a melhor parte: a conversa amena antes do jantar.
Então
o Natal era isso? Corre-corre, frivolidades, comidas e bebidas e, depois de
tudo isso: filho, Papai Noel deixou isto pra você!
Quando
criança, vivi uma religiosidade mais interior, sem igrejas e sacerdotes, apenas
os sacramentos. Não que não gostássemos deles, igrejas e sacerdotes, mas não os
tínhamos por perto. Quando meus pais conseguiram a bênção, já tinham alguns
filhos. Minha mãe, sempre muito devota de Santa Rita, tinha também uma
percepção do mundo invisível muito aguçada e a mente aberta para o que vinha ao
seu encontro. Mais uma coisa que me deixou como herança.
Graças
a tudo isso, nunca consegui me aproximar muito das religiões. São algo de onde
tiro aprendizados, mas a força, mesmo, aquela com que alimento meu ser, vem de
outro lugar, de dentro de mim.
Mas
naquele tempo também eu acreditei no Papai Noel. Sim, ele apareceu lá no sertão
algumas vezes. Depois de passar em todas as casas do mundo civilizado, tendo
sobrado algumas coisinhas, resolveu dar uma passada lá em casa. Achei debaixo
da cama de minha mãe –eu dormia em rede – um pacote de bolacha água e sal. De
outra vez encontrei um par de chinelos, tipo havaianas, Me deixou muito feliz,
apesar de ter um pé maior que o outro. Devem ter sido comprados naquele out let
da Alemanha onde comprei o “keds amarelinho mais lindo do mundo” e que também
tinha um pé maior que o outro.