sábado, 9 de abril de 2016
Eu mesma - pedido de desculpas
Olá, queridos leitores!
Peço desculpas pela ausência de ontem.
Assumi uma tarefa nova e esta tem-me deixado louquinha. Voltei para a Universidade e são muitas as tarefas diárias.
Por isso farei, publicações mais espaçadas por um tempo.
Não me esquecerei de vocês.
Obrigada pelo carinho!
Antonieta.
sexta-feira, 1 de abril de 2016
Sofia e as questões de vida e morte de Severino
Ela quis conversar. Venha, vamos ao velório de um amigo.
Não podia me atrasar. Fora escolhida para fazer o discurso de despedida. Não
gostei muito, mas não tive saída.
Entrou no carro e começou a contar de um caso novo, um
sujeito nordestino, meio estranho. Ele me faz subir pelas paredes, caminhar no
teto, flutuar nas nuvens e mais um monte de coisas inacessíveis aos mortais
comuns. Estava em transe. Uma verdadeira descoberta arqueológica. Um espécime
em extinção, disse ela. De sexta para sábado passei a noite com ele. Deixei-o
dormindo ainda quando fui embora. Nos veremos hoje, de novo.
Falou como pobre na chuva até chegarmos ao salão onde se
fazia o velório.
Havia muita gente, pois era uma pessoa muito querida. Eu
acabava de chegar de uma viagem de meses ao exterior. Antes disso ele já andava
um pouco afastado, falava pouco e escrevia muito. Um livro após outro.
Como acontecera? Não tivera tempo de me informar, por
isso queria chegar um pouco mais cedo para conversar com Ana, uma amiga comum.
Estivera mais próxima dele nos últimos tempos.
Entramos e fomos direto dar uma olhada no meu velho e
querido amigo fujão. Ousou ir embora assim de repente me deixando ainda neste
caos. E o nosso combinado de irmos juntos, numa sexta feira, para que os amigos
tivessem tempo de festejar bastante?
Todos cantavam as nossas velhas canções preferidas,
declamavam poemas e bebiam um bom vinho.
Quando Sofia olhou dentro do caixão e viu Severino ainda
com um leve sorriso nos lábios frios, revirou os olhos e caiu como uma calda
sobre o sorvete e escorreu para o chão.
Todos acudiram e a levamos para fora. Não dizia uma
palavra, apenas tremia e olhava para um ponto no vazio. Quis ir embora.
Entrei e procurei Ana, pois mais que nunca queria saber a
causa da morte do nosso amigo.
Ela então me contou. Já havia alguns dias, ele escrevia
menos. Sentíamos cheiro de namorada nova. Às vezes aparecia no nosso velho bar
de sempre, para o bolinho de bacalhau que só o Lira sabe fazer. Falava pouco,
apenas sorria, como a lembrar-se de algo muito interessante. Despedia-se e ia
para casa.
No sábado, como sempre, a faxineira chegou às nove, preparou
o café e foi chamá-lo. Ele estava na cama, com aquele mesmo sorriso. Ela chamou
mais alto. Ele não respondeu. Insistiu, chegou perto e percebeu que o frio
tomara conta daquele ambiente. Correu ao telefone e chamou o primeiro nome da
lista, Ana.
Eu trouxe um médico e, após examiná-lo atentamente, ele
disse, com um leve tom de inveja: morreu de amor.
Como assim?
Simples, o coração não aguentou uma noite intensa e ele
teve um infarto. Olhe a sua volta.
Ana, você descobriu quem era a mulher?
Não, ninguém sabe.
Olhei para Severino frio no caixão e lhe pisquei um olho.
Ninguém saberia.
sexta-feira, 25 de março de 2016
Beatriz
Segui um raio de sol e meus olhos caíram sobre o teu
vulto. Assustei-me com a luz naquele momento. Havia um brilho especial, algo de
encantamento. Despejei-me sobre a vida, como a chuva depois de um dia abafado.
Era véspera de festa. Tudo era luz e cor. Vivi assim, entre os pingos da chuva
e os raios do sol. Alimentei o amor com a essência da alma. Guardei cada gesto,
cada palavra, como pequenas pedras preciosas.
O tempo escorreu entre os dedos, a alegria desistiu de
sua morada em meus olhos, deslizou em pequenos veios líquidos e desceu pelos
cantos da boca. Senti-lhe o sal, com leve tom amargo entre os cristais
ressecados.
Cilindros de fumaça giravam a névoa do tempo. Tudo se
degradava ao toque. Lembro-me da mulher de Jó olhando para trás. Vaguei na
floresta humana atravessada entre nós. Era a solidão apanhada de surpresa. Mergulhei
nos rios de puro sangue, onde peixes vorazes consumiam meus sonhos. O ar cheirava
a enxofre das palavras condenadas, desprendidas de bocas impuras, maltratadas.
O livro de uma vida escrito em névoa, diluído. Passo com força a borracha sobre
tudo que não foi por falta de existir. Esvazio meu ser dessa insubstância
aquosa, rala, que julguei ser algum tipo de amor. Reduzo-te ao ponto inicial, insignificante, que
eras antes do devir. Nada havia lá. Só ilusão.
sexta-feira, 18 de março de 2016
Inês
Inês não é assim. É apenas uma mulher comum, não sabe nada
dos mistérios da vida e não quer saber. Tem medo de alma, de assombração. Cuida
de sua vidinha e pronto. Está de bom tamanho. Mas anda percebendo alguns
sinais. Pássaros agourentos cantam perto de sua casa, borboletas entram e
pousam em sua mão. Se algum bicho peçonhento se aproxima, assustada manda
embora e eles viram-se e vão. E ela diz, toda prosa, ora, eles sabem quem manda
aqui. Agora é isso. Um pássaro enorme agarrado à porta. Dá voltas, pousa de um
lado, do outro e vem à porta novamente. Antes de tomar o café, ela decide sair.
Zenilda mora em um sítio próximo e deu à luz há poucos dias. Está ainda na
cama, com algumas complicações. Ninguém sabe o motivo. O marido trabalha na roça e Inês vai todos os
dias, preparar o almoço e cuidar do bebê. Melhor ir logo cedo hoje, assim
ficará longe do pássaro insistente. A casa é de taipa. A porta da cozinha é
fechada apenas com meia porta de tábuas irregulares. Para os porcos e galinhas
não entrarem. Por ali não há grandes perigos. O cachorro da casa está agitado,
do lado de fora, e vem ao seu encontro e volta para a porta algumas vezes. O
marido já se foi para o trabalho. Inês entra correndo, já o coração apertado.
Apanha uma faca na cozinha, a vassoura, e entra no quarto. Custa a sustentar-se
nas pernas diante da cena. Segura o grito na garganta seca. É preciso cautela.
Zenilda dorme, com a camisa aberta, e o bebê dorme ao seu lado, após a mamada.
Já com metade do corpo reluzente sobre a cama, ela vê a enorme cobra preta.
sexta-feira, 11 de março de 2016
Isolda
Fiz o
trajeto entre a igreja e a praça umas dez vezes. Olho cada canto e não a vejo.
Olho o relógio no alto da torre. São oito horas. As badaladas ainda ressoam no
ar. Tudo bem, cheguei cedo. Sempre faço
isso e fico aflita quando as pessoas que espero não são pontuais. Agora tenho
mais pressa ainda e ela não chega. Abro a bolsa para pegar um cigarro e
lembro-me de tê-los jogado na lixeira do consultório. Levo a unha à boca e
desfaço o gesto, assustada. Não, não vou começar outro vício agora. Algumas
crianças brincam ainda enquanto as mães conversam uma coisa e outra para passar
o tempo. O resfriado de um, a queda de outro, uma viagem repentina do marido, a
empregada não limpou direito. Chego a invejar aquela simplicidade. Minha cabeça
ferve com assuntos graves e elas falam do preço da carne. Nem sei se estarei
viva na próxima vez em que forem ao açougue. Chuto a pedra solta da calçada e
volto ao compasso dos passos rumo à igreja. A missa terminou. As pessoas saem
aos pares, aos bandos e sinto um ombro chocando com o meu. Desculpa. Não foi
nada. Nada mesmo? Você está pálida. É a luz da rua. Não, deve ser algo sério.
Sou médico, deixe-me ajudar. Olho para um lado e outro e avisto Claudine
acenando da praça. Minha amiga chegou, obrigada. Leve meu cartão. Atravesso a
praça correndo e isso traz alguma cor ao rosto. Ela quer saber o motivo de
tanta aflição e não sei como contar-lhe. São tantos anos de amizade, tantos
planos, tantos sonhos. Lembra da nossa viagem a Lisboa? Gostaria de voltar lá
para comer aquele bacalhau com natas preparado pelo Manoel Correia. Ele quase
não te deixa voltar. E gostaria de ir também à Grécia. Às vezes penso ter
perdido um dedinho lá, numa época remota. As crianças estão bem? O Jorge,
quando volta? Aquela sua promoção no trabalho, sai ou não sai? Isolda, você tem
algo para me contar. Nada importante. Sabe aquele vestido de seda, no Shopping?
Comprei. Para que serve o dinheiro? Para realizar desejos. Isolda, olha para
mim. Para com isso e conta. Conheço você e tem algo sério acontecendo. Ele foi
embora? Desistiu do casamento? E o projeto, como fica? Não, não foi isso. Coloco
a mão no bolso e encontro o cartão que o médico me deu há pouco e quase joguei
na lixeira da igreja, sem ao menos olhar. Leio em voz alta. Doutor João Carlos
Freitas. Oncologista.
sexta-feira, 4 de março de 2016
Marlene
Ando pelas ruas como autômato, segura pela mão que me
guia. Viro as esquinas desconhecidas e me deixo conduzir aos becos forrados de
lembranças ancestrais. Sim, há uma memória de mim entranhada em cada fresta desta
cidade onde me perco e me encontro. As pedras reconhecem meus passos e se
alongam num abraço de boas vindas.
Passo desconfiada, esgueirando-me para não tocar o
cotovelo dos que ali passaram há trezentos anos. Não devo perturbar os amantes
de hoje e de antes, sentados a um canto.
Estou só. Vejo o amor passar de braços dados, sorrindo de
nadas banais. A criança brincando com a sombra na calçada, a folha caindo, o
homem e o cão. Flores desabrochando em profusão nestes tempos de primavera. Renova-se
a natureza e as lembranças brotam nos meus canteiros mais guardados.
Abandonados. Aí renascem não só as flores.
Nosso reencontro foi num outono. Eu não queria ir,
bastava uma vista de longe, mas meu amigo insistia. Era preciso ver de perto,
por dentro. Era preciso rasgar minha carne, mais uma vez, e lavar aquele chão
com novas águas. Aquele lugar tinha o dom de revirar-me as entranhas da alma,
de extorquir-lhe até as ultimas gotas.
Descansei, depois, na ignorância dos ingênuos, como se
ali houvesse aberto e encerrado as portas do passado, como se faz com um quarto
de hotel. Um momento estéril de onde não tiramos nada, nem deixamos.
E agora, na próxima esquina, lá está ela. Toma-me o braço
com carinho e diz: demoraste. Espero-te há tempos. Vamos lá, só tu e eu. E me
leva para casa, onde me consola com pequenas mentiras de amor fingido. Sal na
ferida aberta há tanto, sem cicatrizar. Na meia luz do quarto olho para ela,
meio de lado, e pergunto, rápida, para não perder a coragem. Por que vieste tu
e não ele? Foi a mim que chamaste, ingrata! Não te lembras?
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Alice
Assim, o prazer de partir é o mesmo de voltar. Quero
tanto conhecer lugares novos, como me aconchegar no conhecido, no ambiente que
reconhece meus hábitos e os acolhe sem pudor.
Para os amigos sou cigana, pelo número de vezes que já
mudei de endereço e pelos que ainda estão por vir. É verdade, me mudei umas
dezesseis vezes.
As mudanças são oportunidades de faxina, de arrumação, de
descarte do supérfluo. Se ficamos muito tempo em um lugar, tendemos a juntar
coisas na certeza de precisarmos delas. E aí vêm as caixas e caixas e sempre
sobram algumas das quais nos despedimos sem remorsos. Ou com eles. Não cabem
mais em nossa vida.
Nunca fui apegada a casas, móveis, objetos de decoração
ou livros. Eles passam pela minha vida, assim como as pessoas. Pessoas que amo
muito, pessoas que amo pouco, mas que não quero presas a mim. Quero-as no
coração, mas livres de pés e mãos.
Com essa disposição de alma, aceitei a ideia de mudar
mais uma vez. A casa feita para mim, com cada canto pensado, cada sentimento
colado nas paredes para aconchegar o meu ser cansado. Todos se foram. O espaço
deixado não aceita estranhezas de recém-chegados. E se fez demasiado. É preciso
trocar essa veste alargada pelo tempo. Mais uma mudança.
Tomo pela mão aquilo que pensei coragem e na outra, todos
os juntados da vida. Os dedos se crispam na tentativa de levar o que me foi
tirado. Choro e sangro essa dor sentida e alheia. O olhar apunhalante me segue
nos dias frios e úmidos da solidão compulsória.
Ali, sobre a mesa, ela me olha e chora junto. Apequeno-me
para chegar até seu coração em chagas, ofereço a mão, peço-lhe perdão. Deitamos
juntas, aquela noite, e ela adormece em paz.
As dúvidas, essas ainda as tenho. São dádivas dos astros.
A capacidade de decisão, sinto-a um pouco mais robusta. A bagagem que se leva
nos ombros adquiriu algumas preciosas peças, levadas com carinho e leveza,
enquanto a mala de mão se torna também mais leve a cada dia.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Despedida
Uma sala ampla, clara com grandes vidraças e sofás confortáveis,
cheios de gente à espera. No meio do salão, como uma divisória, uma estante vai
até o teto, cheia daquelas bonecas de cabaça, muito coloridas, tentando dar um
ar alegre àquele espaço frio, apesar do calor infernal. Atrás da estante, o
balcão de atendimento. Os lustres são grandes aros de madeira.
Ao lado deste, uma
enorme porta-pivô gira para-lá-e-para-cá deixando passar médicos e enfermeiras.
Por outra porta passam doentes e visitantes. Às vezes alegres, às vezes
tristes, com sono, amarrotados, esperançosos, aflitos.
Rosa olha tudo e todos, calmamente, medindo cada
cantinho, cada pessoa. E se dirige ao balcão.
Quando soube da internação de Nely não pensou duas vezes.
Arrumou uma malinha com alguns pertences e pegou o primeiro ônibus para
Salvador. Precisava visitar sua amiga.
Desde crianças eram muito ligadas. Nas brincadeiras de
boneca, nos sonhos de garotas, nos segredo e confidências da adolescência.
Estavam sempre juntas.
Separaram-se algumas vezes, mas sua amizade não se
ressentia com a ausência. Era sempre mais forte quando se reencontravam.
Aos 25 anos Nely foi morar na capital. Estudou e
tornou-se professora. A mais querida, nas escolas por onde passou. E viveu
sempre sozinha. Nunca encontrou o homem dos seus sonhos. Teria sido Gonçalo? Ela
o afastou do coração pensando que Rosa o queria
Rosa casou-se depois, com Otávio. Teve filhos e netos.
Mas nunca a impediram de visitar a amiga se esta se sentia sozinha. Lembra
aquela vez quando você me ligou chorando porque quebrou o salto do sapato e
torceu o pé?
Nely sempre ia ter
com Rosa a cada filho que nascia – e foram muitos. Vou ajudá-la a parir seus
filhos, Rosa. Não terei os meus.
Quando Otávio se foi, levado por um infarto, Nely deixou
seus alunos com a diretora, no meio da manhã, e correu ao encontro da amiga com
seu abraço seguro.
Agora isso. Nely internada, com um tumor no cérebro. E
sem parentes que cuidem dela!
Rosa se aproxima do balcão.
- Quero ver Nely Figueira, por favor.
- Agora não é possível, senhora. O horário de visita é só
às 16 horas. Ela está na UTI.
- Ai, meu Deus, moço! Eu vim de tão longe. Sempre
estivemos juntas, na alegria e na tristeza.
- Desculpe, senhora, volte à tarde.
É seca a resposta. Ela não consegue dizer mais nada.
Humilde e cansada, senta-se num banco. Recosta-se como pode e se prepara para a
espera. Essa dor é de cansaço, de mau jeito no ônibus, vai passar logo.
As lembranças vêm aos bandos e ela lhes manda fazer fila.
Atenderá todas elas. É uma forma de estar antes com a amiga.
E começa a passar o filme de suas vidas, desde pequeninas,
vizinhas, em Riachão dos Bois. Lembra o dia que você chegou? O caminhão da
mudança estava parado em frente à casa branca. Você olhou para a minha casa e
perguntou: - Mamãe, nossa casa é a casa rosa, não é? E não sossegou até seu pai
prometer pintar o seu quarto de rosa. Então você se aproximou mais e perguntou
meu nome.
Rosa, de tão cansada, dorme. E sonha. Está de malas
prontas para viajar.
Sua primeira viagem de avião. Um medinho inconfessável
lhe aperta o estômago e faz tremer-lhe as pernas. As pontas dos dedos esfriam e
ela os guarda nos bolsos, junto com a passagem. Não sabe para onde, mas é
preciso ir. Há muitas outras pessoas na sala de espera. O embarque será logo.
Depois de algum
tempo ela desperta, descansada, leve, apesar do banco duro. Levanta, estica o
corpo e olha as horas. Onze e trinta e oito! Ainda falta tanto tempo! Vou andar
um pouco para esticar as pernas.
Ao aproximar-se da porta que leva ao interior do
hospital, ela para, surpresa e alegre. Nely, querida, você já saiu? Já está bem?
Rosa, você veio! Estou bem, estou bem. Vamos, venha comigo. Veja, Otávio está
nos esperando.
O corpo de Rosa cai, frio, sobre a moça sentada ao seu
lado. Esta, assustada, começa a gritar.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Maria das Dores
Vamos lá, Candinha. Tá escuro ainda e um frio de roer o osso
da canela. Mas vou atrás dessa história. Lá sou gente de ficar pela metade? Só
volto com todo o filó cosido, sem faltar um ponto. Zequinha não é homem de
desfeitas. Esse povo tem uma língua tão grande que quando chega numa ponta da
rua ainda se avista ela arrastando na outra. Vamos lá, antes que a cidade
acorde. Ninguém precisa saber. Só você, pois não quero andar por aí sozinha
essas horas. Podem botar maldade e eu sou mulher direita. Tive, sim senhora.
Teve aquela história lá do filho do Coronel Bicudo, mas não tirou pedaço de
ninguém. E o que tá lavado tá limpo, num é? Não vá abrir essa boca, tá me
entendendo? Tiro tudo a limpo e volto com tempo de fazer o café. Ele tá é fazendo serão pra ajudar a pobre da
mãe doente, morre não morre. Muito remédio. Pra semana vou lá visitar. Sogra é
sempre sogra, me deu um bocadinho de trabalho tirar o filho de casa, mas na
hora da morte todo mundo fica bom, num é mesmo? Ela até nem é tão rabugenta.
Chegou mesmo a me comprar um vestido de chita, uma vez. Pra você não dizer mal
de mim por aí, Maria. Eu achei o Zeca, é eu achei mesmo. Ele andava perdido lá
pras bandas da Vila Alta. Eu voltava de um velório na casa de seu Vital e dei
de cara com ele, puxando as rédeas do cavalo, desenxabido. Cá pra nós, mais um
pouco e chorava. Me olhou com aqueles olhos de cachorro abandonado e eu, tão
piedosa e inocente, acreditei em toda a ladainha. Estava escuro, perdi a
entrada pra Capinzal, onde ia vender um gado e vim parar aqui. Mas era tudo
mentira. Maroca bem me alertou, mas não dei ouvidos. Eu solto o osso e ela
pega. A tal fazenda de gado leiteiro existia mesmo, mas ele era o vaqueiro. Foi
mandado embora porque se engraçou da filha do patrão. Caiu na bebedeira e saiu
por aí, procurando outro pouso. Agora trabalha na fábrica. Só tinha mesmo uma
casinha na vila onde morava com a mãe e duas irmãs. Estas faziam todo o
trabalho para agradar o homem da casa. A mãe fazia questão. Eu já estava
perdida de amores e podia muito bem morar num canto qualquer, sendo com ele. E
olhe, já são seis anos de viver junto sem queixa. E ele gosta muito das
crianças. De uns tempos pra cá ele até tem trabalhado mais. Não vejo lá o bolso
mais cheio não, mas ele diz que é assim mesmo. Quanto mais a gente ganha mais
deve. E tem os remédios da mãe, não é? É um serão atrás do outro. Se falta
funcionário, só tem Zequinha pra tampar buraco. O pobre chega em casa cansado
de dar dó. Estamos chegando. Olha lá a casa da sirigaita. Vai ser rapidinho. É
só dar bom-dia, com licença e até logo. Você vai ver, ela tá sozinha. Fique
aqui. Eu bato lá, faço o que vim pra fazer e já volto. Oh, Zequinha, veja quem
bate tão cedo. Se for cobrador, resolva aí. E passe um café. Eu preciso dormir
mais um bocadinho.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
O vestido encarnado
Anda pela rua com seu vestido encarnado e um chapéu de
palhinha. Bem surrados, os dois. Uma chinela velha, desemparelhada. Muito pó de
arroz e o batom vermelho que Jandira lhe deu. Pra você andar bonita, Zefinha. O
corpo delgado, o rosto fino e gasto, queimado de sol e de lágrimas. Quando as
tinha, pois um dia secaram e não voltaram mais. Nos braços o seu bebê.
Antes disso até sorria. Não era de todo esquecida dos
deuses. As meninas brincavam com ela, levavam-na para casa e davam-lhe de comer
de tudo que havia. Às vezes recebia pequenas tarefas das senhoras. Zefinha,
você pode entregar esta costura da dona Margarida? Com muito prazer, dona Ilda.
Zefinha, amanhã você quer me ajudar a fazer biscoitos? Com certeza, dona Joana.
E depois sempre ganhava um agrado. Vivia com dona Jura. Beata piedosa e de
posses, lhe dava obrigações, para educá-la nas leis de Deus, mas não abusava de
suas poucas forças. A doença que levou sua mãe deixou-a fraca dos nervos.
Mocinha feita, ela pediu à mãe adotiva um vestido
encarnado. De uma amiga ganhou um batom e um laço para os cabelos. Com um juízo
precário das lições aprendidas com D. Jura, logo se deixou levar pelos garotos
para trás de um muro e outro, das moitas frescas do verão e assim fez seu
aprendizado das coisas do amor. Não havia tranca ou ameaça de purgatório que
segurasse Zefinha quando ouvia o chamado.
De uma vez, trouxe com ela um pequeno ser palpitando nas
entranhas. E até
aprendeu a bordar e costurar para fazer o enxoval do seu bebê. As meninas
ajudaram. Não podiam ser mais suas amigas e D. Jura juntava-as na igreja para
ajudarem no enxoval.
Contava a todos a novidade. Sua alegria se espalhou pela
cidade. Todos queriam dar alguma coisa. Se olhava para alguma guloseima na
padaria seu Manoel dizia: dá-lhe Maria. Não vá nascer o menino com cara de
pastel. Saía do mercado com a sacola cheia de frutas. Para matar o desejo.
Os olhos de Zefinha brilhavam assim como crescia a
barriga. Nada lhe dava mais alegria. Esqueceu-se dos muros, das moitas e dos rapazes.
Só pensava em seu bebê.
E chegou o dia do parto de Zefinha. Não cabia em si e nem
ligou para dor nenhuma. Tomou nos braços o rebento mas não ouviu-lhe o choro. Sacudiu,
bateu e não ouvia nada. D. Jura tirou-lhe dos braços a criança morta e então sua
alma se partiu. Dona Jura costurou uma grande boneca de panos, vestiu, enrolou
em cueiros.
Passa os dias e noites ninando seu bebê, brincando com
ele, dando-lhe o peito. Aonde vai, Zefinha carrega o filho aconchegado ao colo
e canta uma cantiga de ninar.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Pérola
Às vezes só preciso de uma deixa. Solto a torrente de palavras aprisionadas no fundo de uma alma descabida. A gata está sobre a janela. Tiro-lhe uma foto e ela se acha o centro das atenções. Pula sobre a mesa e atravessa para um lado e para o outro. Sobre o computador. Sempre tive horror a gatos. Não sei se algo ancestral ou se por causa do gatinho que ganhei quando criança. Levei-o para casa, aconchegado no colo, mas sempre assustada com suas unhas afiadas no meu pescoço. Depois de alguns dias já não o queria mais. Carrego ainda a marca dos seus dentes no pulso. Desde então sei que detesto gatos, mas eles talvez não saibam. Era só chegar numa casa e o gato vinha logo ajeitar-se no meu colo. Pedia socorro à dona da casa. Ela o tirava, mas logo estava lá novamente, alojado, desfiando minhas roupas, enchendo-me de um pavor desconhecido. E eu não era mais uma criança. Eles limpam o campo energético da pessoa. É possível, mas acho que esta gatinha está é sofrendo de solidão. Sim, ela quer as atenções. Como eu as quero. E você também. E a moça do café. Sentada à mesa, ela espera. A empada, o suco, o tempo passar. Finge tranquilidade, finge estar à vontade no mundo, mas por dentro sente uma solidão de pedra em beira de estrada. A todo o momento, pega o telefone e chama alguém, que nunca responde. Seus olhos passeiam ansiosos pela rua. Talvez apareça algum rosto conhecido ou interessante. Depois repousam sem foco, em qualquer parede ou no chão. Pega novamente o celular e recomeça a sessão de ligações não atendidas. Pensa em voltar para casa, mas lá também estará sozinha. E esse dia cinza não ajuda em nada. Esfrega o peito, na tentativa de limpar algo de dentro, incomodando, apertando, doendo. Gira o anel. Foi presente da mãe. Sempre sonhou mostrar às amigas o anel, presente do noivo, do marido. Não teve noivo, não teve marido. Ainda. Esperem e vou encontrar o homem certo. Endireita-se na cadeira, dá uma espiada no espelho, na parede da frente, e toma um gole de suco para afrouxar a garganta. Respira fundo, dando ao coração uma chance de retomar o ritmo. Entra o homem do casaco cinza e ela vira-se com a graça de uma bailarina de caixa de música. Pérola, a gatinha, espicha seus olhos, retorce o corpo e me acaricia com o rabo. Já não posso ficar indiferente. Deixo a moça do café entregue a mais uma tentativa e vou brincar com essa pequena faceira.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Capim rabo de rato
Tenho um carinho especial pelo outono. Esse tempo é e deixa de ser a cada momento. Nos recolhe e nos deixa ao léu. Tempo de espera, de incertezas. Chega de mansinho e vai entrando, sem pedir licença. Sopra um segredo ao ouvido, traz de longe uma canção há muito esquecida. De repente estamos naquele sofá, junto à janela, fotografias amareladas pelo tempo, em busca de qualquer coisa do passado como um fio, ao menos, que nos impeça de naufragar no presente.
A cada
ano fico na espreita para sentir sua primeira brisa, sua primeira carícia em
minha pele. Nesse momento em que começamos a pegar nossos agasalhos, envolver
nossos pescoços com cachecóis macios, a tirar os cobertores do armário e a
recolher nossas almas ao universo interior, meu desejo é montar no vento e
correr mundo, correr tempo, espalhar minha alma sobre os campos de capim “rabo
de rato” da minha cidade.
Um
campo roxo e aveludado convidava, inspirava ideias loucas na minha
adolescência. Ali meus sonhos voavam com o vento, brincavam de amarelinha,
andavam pelos jardins de palácios, ao lado de príncipes encantadores. Os amores eram possíveis e não havia o medo da
solidão. Cavalgava pelo deserto fugindo das sombras de guerreiros nômades. Doía
em meu peito uma saudade imensa e eu queria ir...
Já não dói mais, essa saudade. Aquietou-se em alguma veia gasta pelo tempo, deixando um vazio cálido e um gosto de ferrugem na boca. Esse vazio cresce ainda quando sobra a primeira brisa do duplo outono, aqui, em terra distante, onde não vejo o roxo manto do meu sonho, o suave veludo onde guardei meus anos dourados.
Já não dói mais, essa saudade. Aquietou-se em alguma veia gasta pelo tempo, deixando um vazio cálido e um gosto de ferrugem na boca. Esse vazio cresce ainda quando sobra a primeira brisa do duplo outono, aqui, em terra distante, onde não vejo o roxo manto do meu sonho, o suave veludo onde guardei meus anos dourados.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Casa com vista
Clara abre a porta. Vai regar as flores, uma das tarefas
mais prazerosas do momento. Abaixa-se para pegar a mangueira e quando se ergue
leva um susto. Vê um homem parado na frente da casa, olhando como se tivesse
perdido um pouco da consciência. Como aconteceu com ela quando seu carro foi
parar no meio do canteiro e ela não se lembrava de nada.
Estatura mediana, forte, cabelos claros e um tanto
crescidos. Muitas tatuagens nos braços. Os olhos, verdes, estão cheios dos sons
da água corrente. Mãos fortes, mas delicadas. Trinta e cinco anos? Meu Deus! Rapidamente ela faz a ficha inicial.
Procura casa para alugar. Trabalho de um lado, a filha do
outro. Aqui é meio tempo entre os dois.
- Já vi algumas casas, mas nenhuma delas tem a exata
medida da minha necessidade. Uma vista para o poente. Preciso ver que as coisas
mergulham e vão, deixando outras virem atrás de si. Como o sol, a cada dia.
Esta casa tem isso, uma linda vista do entardecer.
-Sim. Eu escolhi.
Cozinha-se, no verão, apenas com o calor do sol. Comida viva! Conhece? - diz
Clara, rindo. Ainda precisam crescer algumas árvores desse lado. Já plantei uma
ali.
-Gosto muito de calor. Preciso dele.
- E o vento sul atravessa a varanda com a desfaçatez de
quem se sente o dono.
-Dependo dele; sou paraquedista.
-Uau! Sempre sonhei em pular de paraquedas, mas devo
ter-me esquecido de colocar na lista de desejos antes de descer no bico da
cegonha. Por que não se pode descer de paraquedas?
Enquanto conversam, ele anda em volta da casa e Clara o
segue, meio sem saber o que fazer. Gosta da cor da parede e fica parado olhando
para a roseira no canto do jardim.
- Uma porta aqui, dando para o jardim, ficaria perfeita.
Uma mesa para o café da manhã a dois. Do outro lado, ao sol poente, um deck, de
onde se possa vê-lo partir a cada dia.
- Sim, é minha intenção, no futuro.
- Não está alugando? Ouvi alguma coisa.
-Apenas por um mês. Só as férias. Está tudo incerto
ainda.
Ela pega um vaso para mudar de lugar e ele se apressa em
ajudar. Sente suas mãos. Mãos fortes,
como ela sempre procurou. Mãos acostumadas a segurar cordas, ou pequenos fios
de vida, nas alturas. Inspiram segurança, esses calos, essa pele áspera e
queimada de sol.
-Como é seu nome mesmo? Everton?
-Jackson.
-Jackson.
Pois é, Jackson. Não tenho ainda um roteiro definido. Também não sei se
volto depois das férias ou se fico por lá. Este é um momento de bifurcações.
-Vamos fazer assim: você aluga por um mês e depois, se
quiser voltar, podemos nos entender. Não me importo de dividir a casa com
você. Estou acostumado com isso. Se não
se importar.
- Hã... Hummm... Sim. Não! Talvez. Sim, você fica por um
mês. Talvez possamos dividir a casa depois. Por que não?
Acertam detalhes e Jackson vai embora. Meio de costas, sem
querer soltar o olhar de Clara, que o segue, limpando as mãos no avental. Assim
disfarça a vontade de ficar acenando abobada, até ele sumir na esquina.
sábado, 9 de janeiro de 2016
Encontro com ela
Ele chegara havia alguns dias. Nem alegre nem triste.
Falava pouco, ouvia muito. A máquina fotográfica na mão, à espreita. A praia
pequena, em forma de concha, acolhia seus passos por todo o dia. Com a
paciência de quem espera uma estrela cair do céu ao mar, bem aos seus pés, ele
esperava. Esperava a flor se abrir até o momento em que a abelha escorregava
para dentro do cálice perfumado. Esperava o raio de sol atravessar a folhagem
de uma árvore e alcançar o ângulo desejado, quando cintilava a gota de orvalho
a pender da manhã recém-nascida. Esperava a formiga com seu fardo alcançar o
topo de uma pedra ou folha seca e, deitado sobre a grama, aprisionava-lhe o
gesto de supremo esforço. Esperava a sabiá que descia da cumeeira, incansável,
em busca de alimento para os bicos insaciáveis de seus filhotes.
Às vezes dormia horas numa sombra na praia. Ou sumia o
dia inteiro andando pelas trilhas da floresta. Nesses dias jantava bem. Gostava
de peixe e de um copo de vinho. Pela manhã, muita fruta, que as frutas daqui são
as melhores! Ensinou aos moleques muitas brincadeiras. Ensinou a fazer a horta.
Um leve sorriso aqui e ali.
Riso mesmo, não
tinha não. Coração vazio. Se está cheio vaza pela boca. Não se contém. Vai se
derramando por onde passa.
E a moça dos olhos grandes chegou. Com a mala de quem
deixou adeus nalgum canto deste mundão. Entrou, pediu um quarto e um copo
d’água. Deitou-se numa rede e lá ficou a cantarolar alguma coisa triste.
Dormiu.
O moço voltou à tardinha e ela ainda dormia. Ele olhou,
estranhou, chegou perto para ver melhor. Afastou-se, sentou no chão e ficou
ali, olhando, até ela abrir os olhos. Não era temporada, não havia outros
hóspedes. Fiquei no meu canto, estatua de enfeite.
E eu vi. Vi seu
peito se encher de ar algumas vezes e quando exalava era um sorriso que se
derramava pelo salão.
No dia seguinte ele não trouxe a máquina. Não dormiu, não
caminhou. Apenas riu. De cada gesto da moça, cada palavra, ele ria e se
encantava.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
O grito
Caminho pela calçada da Rua das Flores como faço todos os
dias às cinco e trinta da tarde. Uma hora de caminhada para ver o dia se
despedir na beira do rio. É minha meditação diária. Ajuda a digerir todas as
impressões gravadas na alma e guardadas no estômago. Há menos pessoas na rua
hoje. Estranho a falta de Dona Carmen, a espanhola, andando no sentido oposto
com seus poodles. Não se sabe muito dela. Apenas que vive sozinha, gosta de
cães e tem renda suficiente para viver tranquila. Sorri, diz boa tarde e ralha
com seus pequenos amigos enquanto eles latem para mim. Tive um sonho estranho
onde via muitas mãos sujas de sangue. Acordei com um grito. Lá vem Seu Juvenal,
num andar descompassado, batendo com a bengala na calçada. Está sempre
sorrindo, caso encontre alguém. Digo boa tarde, Seu Juvenal, e ele responde
alargando o sorriso. Derramei café na minha toalha preferida. Amanhã passo na
lavanderia. Marta passa, apressada, com pães e bolos para o jantar dos patrões.
Tem trinta anos e trabalha para a família Nogueira há quinze. Dizem que tem um
namorado. Dizem que é mentira. Alguns falam de uma relação pecaminosa. Outros,
de um ser alienígena. Não sei. Todos os dias busca o pão. Com olhar sempre no
chão, anda mais rápido hoje. A mão direita enrolada no pano da saia longa. Um
arrepio me corre a espinha. Não cumprimenta ninguém. Não consegui terminar a
revisão para a Revista Clavícula. Foi um tropeço. Não entregaram as fotos para
o fechamento. Falo com eles amanhã cedo. Um grupo de jovens cruza a rua, na volta
da escola, com seu riso solto sacudindo a tarde. Viram a esquina rumo à
lanchonete. Avisto a pequena ponte sobre o rio. De madeira trabalhada, feita
pelos moradores para festejar o centenário da cidade. O sol se aproxima do
horizonte e apresso o passo para vê-lo ainda nas águas. Debruço-me sobre a
ponte e deixo o olhar se alongar até onde o leito some na curva. Aqui já não
quero pensar, apenas deslizar sobre a vida, sobre as nuvens laranjas e azuis se
misturando em magenta. Promessa de frio. Uma brisa sopra pelas minhas costas e
com ela vem um gemido de cão, baixinho. Olho para a margem, lá embaixo e vejo
os pequenos poodles de dona Carmen amarrados a um arbusto. Na minha garganta um
grito se solta.
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