Nasceu
longe de tudo, no interior do interior do Nordeste. Muito apegada aos pais, não
quis sair de casa para estudar. Sempre preferiu a roda dos homens, onde a
conversa era culta, onde se fazia charadas, se declamava poesia, se falava de política,
medicina, direito... Tudo lhe interessava muito mais que a cozinha.
Nem
por isso deixava de ajudar a mãe com presteza e boa vontade. Tão prestativa que
seu nome era o primeiro a ser chamado. Um dia disse vou mudar de nome. Para
Maria, perguntou-lhe a mãe. Isso lhe causou remorso para o resto da vida.
Desejo imenso de aprender e servir. Um segurando o outro.
Casou-se
com um viúvo e seus seis filhos. Deu-lhe mais nove enquanto trabalhava das
cinco da manhã à meia noite para servir bem a todos.
Buscava
dezoito latas de água na fonte a uns seiscentos metros, todos os dias, para
cozinhar, limpar, banhar e dar de beber à grande família que era acrescida de
um rebanho de ovelhas, um de cabras, porcos, galinhas e jumentos. Uma vez,
estando grávida de oito meses, tropeçou e caiu, derramando toda a água. Pegou a
lata e voltou para a fonte, pois não podia perder uma viagem. Meu irmão não
sofreu nada.
Se uma
amiga estava doente, depois de colocar o almoço para cozinhar no fogão a lenha,
andava dez quilômetros até a cidade para uma visitinha e voltava para servir o
marido ao meio dia.
Às
cinco da manhã fazia o café que o marido tomava antes de ir para a roça. Depois preparava
o desjejum. Se ele estava por perto, ouvia-se o grito: eh! Juvino! E ele vinha.
Se estava longe, um dos filhos ia levar.
Beiju,
cuscuz, jacuba de buriti, carne assada, na brasa, ovos estrelados no toucinho,
coalhada, pirão de leite, bolo de puba, eram as delícias que se comia no café
da manhã. Se era tempo de caju, a meninada caía na mata próxima para comê-los. Enchíamos
um cuia para a mãe.
Mas
havia aqueles dias em que faltava o milho, a tapioca, a carne, ovos... Os “dias
difíceis”. Num desses dias, ela pegou um pedacinho de toucinho, fritou, mexeu
as sobras de arroz da noite, um pouco de farinha e serviu aos filhos. Lembro-me
ainda do sabor. Eu tive o dom de transformá-lo em uma refeição especial.
O
jantar era servido ainda com a luz do dia e depois do serão na porta da casa
meu pai se recolhia. As crianças também. Minha mãe fizera o seu na cozinha,
limpando e preparando algum quitute para o dia seguinte. Passava então à tarefa
de cerzir ou passar as nossas roupas à luz da lamparina. Só se recolhia por
volta da meia noite.
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