sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Minha mãe


Nasceu longe de tudo, no interior do interior do Nordeste. Muito apegada aos pais, não quis sair de casa para estudar. Sempre preferiu a roda dos homens, onde a conversa era culta, onde se fazia charadas, se declamava poesia, se falava de política, medicina, direito... Tudo lhe interessava muito mais que a cozinha.
Nem por isso deixava de ajudar a mãe com presteza e boa vontade. Tão prestativa que seu nome era o primeiro a ser chamado. Um dia disse vou mudar de nome. Para Maria, perguntou-lhe a mãe. Isso lhe causou remorso para o resto da vida. Desejo imenso de aprender e servir. Um segurando o outro.
Casou-se com um viúvo e seus seis filhos. Deu-lhe mais nove enquanto trabalhava das cinco da manhã à meia noite para servir bem a todos.
Buscava dezoito latas de água na fonte a uns seiscentos metros, todos os dias, para cozinhar, limpar, banhar e dar de beber à grande família que era acrescida de um rebanho de ovelhas, um de cabras, porcos, galinhas e jumentos. Uma vez, estando grávida de oito meses, tropeçou e caiu, derramando toda a água. Pegou a lata e voltou para a fonte, pois não podia perder uma viagem. Meu irmão não sofreu nada.
Se uma amiga estava doente, depois de colocar o almoço para cozinhar no fogão a lenha, andava dez quilômetros até a cidade para uma visitinha e voltava para servir o marido ao meio dia.
Às cinco da manhã fazia o café que o marido tomava antes de ir para a roça. Depois preparava o desjejum. Se ele estava por perto, ouvia-se o grito: eh! Juvino! E ele vinha. Se estava longe, um dos filhos ia levar.
Beiju, cuscuz, jacuba de buriti, carne assada, na brasa, ovos estrelados no toucinho, coalhada, pirão de leite, bolo de puba, eram as delícias que se comia no café da manhã. Se era tempo de caju, a meninada caía na mata próxima para comê-los. Enchíamos um cuia para a mãe.
Mas havia aqueles dias em que faltava o milho, a tapioca, a carne, ovos... Os “dias difíceis”. Num desses dias, ela pegou um pedacinho de toucinho, fritou, mexeu as sobras de arroz da noite, um pouco de farinha e serviu aos filhos. Lembro-me ainda do sabor. Eu tive o dom de transformá-lo em uma refeição especial.


O jantar era servido ainda com a luz do dia e depois do serão na porta da casa meu pai se recolhia. As crianças também. Minha mãe fizera o seu na cozinha, limpando e preparando algum quitute para o dia seguinte. Passava então à tarefa de cerzir ou passar as nossas roupas à luz da lamparina. Só se recolhia por volta da meia noite.

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