sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Eleusina





Eleusina é seu nome. Nascida no interior, boa formação acadêmica, certa rigidez religiosa. Sobre o pecado foi-lhe explicado infinitas vezes pela mãe, pela avó, pelo pastor da sua igreja. E pelas colegas de escola. Reduziam a concorrência. Por lá também os rapazes eram poucos.
O Universo conspirara a seu favor, dando-lhe um corpo saudável e um rosto adorável
 A qualquer momento o amor bateria em sua porta, pediria licença, pediria a sua mão, e iriam juntos ao altar. O caminho seguro para a felicidade.
De natureza afogueada por dentro, por fora aparentava uma calma de quem já vislumbrava o doce encontro com sua alma gêmea. Seus órgãos dos sentidos eram verdadeiros rastreadores. Detectavam um rapaz antes mesmo de ele dobrar a esquina, mas suas amigas se adiantavam e o levavam para longe dela. Não fosse cair em tentação.
E Eleusina seguiu a vida em sua rotina. Trabalhou e rezou. Mais para encurtar a espera que pelo bem geral da Humanidade.
Um dia seu trabalho a levou a outra cidade. Sozinha. Nas horas vagas procurou igrejas, parques, cinemas e museus. Admirava uma tela com duas meninas orando enquanto a mãe lhes servia a refeição. A cena tocou-lhe a alma causando profunda comoção. As lágrimas lhe corriam pelo rosto como o fio de água ao brotar da pedra, caminho aberto em busca de um leito que a acolhesse.
Sentiu alguém ao seu lado  e recompôs-se. Era o homem que observava o “Jardim das delícias”, de Bosch, quando ela entrou. Ela o notou, mas ele estava muito atento àquela obra obscena.
 – Uma bela cena, não é? - disse ele, perto do seu ouvido. – Lindas meninas!
Um frio intenso correu-lhe pela espinha deixando um tom amargo, quase imperceptível, em sua garganta. Era como se uma nuvem tivesse encoberto o sol, lá fora, e sua alma sentisse o gosto da sombra a envolver-lhe os ossos.
Ele é tão gentil, ela pensou.  Ofereceu-lhe o braço e percorreram as galerias do museu fazendo observações espirituosas a cada quadro. Ela sorria para tudo e respondia aos gracejos dele com sua risada solta, suave.
Chegaram ao hotel. Ele subiu com ela como se fizesse isso há muitos anos. E só saiu no dia seguinte, quando ela saiu para o trabalho.
Naquele dia ela voltaria para casa. Com a promessa dele de ir em seguida, conhecer a família e formalizar o noivado.
Passaram uns dias. Do outro lado da linha alguém respondeu. É engano, não há ninguém com esse nome. Eleusina sentiu aquele mesmo frio na espinha. A sombra pousou sobre sua cabeça.
Emagrecia e seus olhos já não refletiam a luz do sol. Seu pai notou. Problemas no trabalho, um salgado de feira. Logo passa.
Não passou. A sombra deslizou e encontrou abrigo em seu coração.
Naquela manhã não foi trabalhar. Saiu do consultório e perambulou pela cidade, sem rumo, até as pernas lhe faltarem.  Depois de breve exame e um ultrassom o médico dissera: Parabéns! São duas meninas! 


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Uma gota de noite





É setembro, mais uma vez.  Quando todas as promessas se renovam. Quando desistir é passado. Uma corrente de energia nova transpassa cada átomo. Nada peço. Sinto essa hora como nenhuma outra. Hora onde fadas tecem novos enredos para os sentidos cansados dos viventes.
E uma gota de noite ameaça cair sobre nós.
 O vento sopra em minha nuca contando histórias de um tempo  onde tudo pode ser. Conta do amor chegando sem aviso e se instalando sem pudor à minha volta. A terra exala o perfume da última chuva há tanto esperada.
No horizonte uma gota de noite sorri, descarada.
Os cheiros da noite se misturam ao da grama cortada e entram pelas minhas narinas, acendem lembranças doloridas, vivas ainda na pele. Foi ontem apenas. Será sempre.  
Uma gota de noite se mantém suspensa aquela vez.
Como um sonho há muito não sonhado, teu braço moreno envolve a solidão do meu corpo e revolve as entranhas esquecidas. As seivas da primavera desperta se misturam às minhas num caudal, rompem comportas e se espalham. Teu riso claro e leve soa em meus ouvidos e tua palavra se mistura ao silêncio em minha boca.
Da boca da noite uma gota se derrama em nós.
Os raios do sol se pondo iluminam desse laranja rosado todo o lado do céu a oeste e se derramam sobre os campos, lá embaixo. Rimos das coisas tolas que falamos sem perceber sua pouca importância. Rimos das borboletas que voam ao redor em seu ritual de acasalamento. Dos pássaros ensaiando seu canto para um galanteio à parceira. Todos os seres cintilam nessa nova era.
 E a boca da noite se abre sobre o dia findo.
O sol se vai. A noite pousa sobre nós como um véu. Envolve esse mundo de luz a nossa volta e nos desliga de todo passado, de todo futuro. Cai como a gota de chuva pendurada num raio de sol. Desfaz amarras, solta as almas sedentas de aconchego e as transporta no leito de um rio de verão.
Mais uma gota de noite desfaz-se na escuridão.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Feliz Aniversário, Bell



O copo está vazio já há algum tempo e ninguém aparece para lhe fazer um brinde. É seu aniversario de 20 anos! Como podem fazer isso? Ela sempre se lembra de todos, faz festa para cada um. Agora está ali sozinha, depois de duas taças de vinho.
Olha mais uma vez para a porta se abrindo. Não são eles. Pede um cigarro, a conta e sai do bar. É agosto e o vento chicoteia seu rosto, entorpece seus sentidos. Fecha bem o casaco, abre a bolsa e confere o telefone. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Disca um numero, espera um instante e desliga. Caminha contra o vento durante algum tempo perguntando-se o porquê de cada um não ter aparecido. Não encontra nenhuma razão plausível. Agora já não segura as lágrimas, deixa-as correrem livres pelo rosto já borrado. É preciso acabar com essa dor.
Continua andando pela rua larga que leva ao outro lado da cidade. Pessoas passam ao seu lado, mas ela não percebe. Está só, é verdade. Namorado, não tem. Não encontrou ainda ninguém que lhe prendesse a atenção. Na família, apenas o irmão consegue penetrar naquela redoma criada em volta de si. Mas esse irmão está muito longe, certamente não conseguirá ligar.
A mãe, depois de um acidente, sofrera na cama alguns anos e depois morrera, deixando-a ainda garota. O pai, sentindo-se culpado pela morte da esposa, ficou sombrio e quando chegava do trabalho entregava-se à bebida, dando pouca atenção aos filhos. Bell era mais velha e sustentara o peso da família desde cedo. Cuidara do irmão, da casa e, depois, do próprio pai, nos momentos difíceis.
Começou a trabalhar cedo para garantir que nada faltasse, mas não deixou de estudar. Os livros eram sua âncora.
Andou mais um pouco e parou diante de uma casa iluminada onde se festejava um aniversário. Ficou ali parada, ouvindo a música e as vozes alegres daquelas pessoas felizes. Cantou junto com eles o “parabéns pra você”, deu-se um abraço e chorou sentada na calçada, um pouco escondida.
Depois de algum tempo retomou a caminhada em direção à grande ponte que dividia a cidade ao meio. Por que não? A mãe está lá, acenando para ela, sorrindo. Irá até lá para abraçá-la e acalmar seu coração tão sozinho. Segue em frente. Seu olhar brilha mais a cada passo.
De repente para. Tudo nela estremece. Abre a bolsa e pega o telefone. Há uma mensagem. Do pai. E diz apenas: filha...
Abre a porta da casa e vê o pai.
Naquele dia ele não bebera. Sobre a mesa havia um bolo, muitas flores, velas e um pequeno presente.