sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Um xale roxo


Esfrego as mãos numa aflição doída. É domingo e chove como se fosse janeiro. Os amigos se foram e já não tenho a quem chamar. O cinza de fora se fez dentro, carregando consigo esse excesso de água que o verão bem sabe. Rios e lagos moram em minhas veias e abrem espaço contra a gravidade para romper nos olhos. Já não sei qual parte de mim chove cá dentro ou lá fora. Levo os bolsos cheios de lembranças vagas e empoeiradas de um tempo morto.
O sol se cansa desse brincar sombrio e se mostra como num escancarar de janelas nas manhãs de abril. Corro lá fora, enxada na mão, a desafogar as roseiras e gerânios do pequeno jardim.
Há uma premência em secar essas águas que me afogam já e bato na terra encharcada como se fosse ela o dragão a me consumir. Torço-me com força e o suor escorre farto, novos caminhos dessa água peregrina. Sinto-lhe o sal na língua ressecada e bato com mais força para arrancar de minha pele as ervas daninhas.
Apaziguada a natureza, recolhido o excesso, refeito o cenário da mesmice crônica da vida, deito-me na rede. Dou-me essa pequena trégua ao corpo enquanto verto em folhas ávidas a torrente de palavras que me sopram aos ouvidos.
Lembro-me do dia em que perdi aquele xale roxo. Era velhinho, já, mas aquecia-me como um amigo em dia triste. Só tu sabias, como ele, aquecer-me os cantos da alma.
Chovia aos cântaros, no centro da cidade. E era janeiro. Corremos como loucos em busca de um abrigo, de um táxi...  Da eternidade de um momento. Éramos felizes, aquele dia. O cinema, o café da livraria, a praça... Tudo que olhávamos se desfazia em luz, explodia em cores como noite de natal. Um calafrio trespassou minha nuca ao atravessar a rua. Senti seu último toque e virei-me para alcançá-lo. Já ia longe, acenando para mim, preso à antena de um carro. O relógio da catedral batia um quarto de hora qualquer.
Era nossa despedida, antes da tua viagem. Aquela, da qual não voltaste senão em forma de um soco em meu peito no momento do acidente. Lembro esse episódio como um presságio ao qual não dei atenção. Já te arrancavam de mim ali, às vésperas.
Sempre passo por lá endireitando meu caminho, esticando aqui, encurtando lá, para poder ouvir, na igreja, as batidas dos quartos de hora. E vejo teu riso claro balançando no ar e explodindo em fogos de artifício.

Toca o telefone e desperto desse sonhar persistente em me arrancar do lado da vida chamado realidade. Finalmente alguém rompe o círculo fechado a minha volta e me oferece a companhia para um café. Esse, a quem pude chamar um amigo caído do céu, deu-me o primeiro degrau para espiar acima do lago onde me havia afundado.

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