Às vezes só preciso de uma deixa. Solto a torrente de palavras aprisionadas no fundo de uma alma descabida. A gata está sobre a janela. Tiro-lhe uma foto e ela se acha o centro das atenções. Pula sobre a mesa e atravessa para um lado e para o outro. Sobre o computador. Sempre tive horror a gatos. Não sei se algo ancestral ou se por causa do gatinho que ganhei quando criança. Levei-o para casa, aconchegado no colo, mas sempre assustada com suas unhas afiadas no meu pescoço. Depois de alguns dias já não o queria mais. Carrego ainda a marca dos seus dentes no pulso. Desde então sei que detesto gatos, mas eles talvez não saibam. Era só chegar numa casa e o gato vinha logo ajeitar-se no meu colo. Pedia socorro à dona da casa. Ela o tirava, mas logo estava lá novamente, alojado, desfiando minhas roupas, enchendo-me de um pavor desconhecido. E eu não era mais uma criança. Eles limpam o campo energético da pessoa. É possível, mas acho que esta gatinha está é sofrendo de solidão. Sim, ela quer as atenções. Como eu as quero. E você também. E a moça do café. Sentada à mesa, ela espera. A empada, o suco, o tempo passar. Finge tranquilidade, finge estar à vontade no mundo, mas por dentro sente uma solidão de pedra em beira de estrada. A todo o momento, pega o telefone e chama alguém, que nunca responde. Seus olhos passeiam ansiosos pela rua. Talvez apareça algum rosto conhecido ou interessante. Depois repousam sem foco, em qualquer parede ou no chão. Pega novamente o celular e recomeça a sessão de ligações não atendidas. Pensa em voltar para casa, mas lá também estará sozinha. E esse dia cinza não ajuda em nada. Esfrega o peito, na tentativa de limpar algo de dentro, incomodando, apertando, doendo. Gira o anel. Foi presente da mãe. Sempre sonhou mostrar às amigas o anel, presente do noivo, do marido. Não teve noivo, não teve marido. Ainda. Esperem e vou encontrar o homem certo. Endireita-se na cadeira, dá uma espiada no espelho, na parede da frente, e toma um gole de suco para afrouxar a garganta. Respira fundo, dando ao coração uma chance de retomar o ritmo. Entra o homem do casaco cinza e ela vira-se com a graça de uma bailarina de caixa de música. Pérola, a gatinha, espicha seus olhos, retorce o corpo e me acaricia com o rabo. Já não posso ficar indiferente. Deixo a moça do café entregue a mais uma tentativa e vou brincar com essa pequena faceira.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Pérola
Às vezes só preciso de uma deixa. Solto a torrente de palavras aprisionadas no fundo de uma alma descabida. A gata está sobre a janela. Tiro-lhe uma foto e ela se acha o centro das atenções. Pula sobre a mesa e atravessa para um lado e para o outro. Sobre o computador. Sempre tive horror a gatos. Não sei se algo ancestral ou se por causa do gatinho que ganhei quando criança. Levei-o para casa, aconchegado no colo, mas sempre assustada com suas unhas afiadas no meu pescoço. Depois de alguns dias já não o queria mais. Carrego ainda a marca dos seus dentes no pulso. Desde então sei que detesto gatos, mas eles talvez não saibam. Era só chegar numa casa e o gato vinha logo ajeitar-se no meu colo. Pedia socorro à dona da casa. Ela o tirava, mas logo estava lá novamente, alojado, desfiando minhas roupas, enchendo-me de um pavor desconhecido. E eu não era mais uma criança. Eles limpam o campo energético da pessoa. É possível, mas acho que esta gatinha está é sofrendo de solidão. Sim, ela quer as atenções. Como eu as quero. E você também. E a moça do café. Sentada à mesa, ela espera. A empada, o suco, o tempo passar. Finge tranquilidade, finge estar à vontade no mundo, mas por dentro sente uma solidão de pedra em beira de estrada. A todo o momento, pega o telefone e chama alguém, que nunca responde. Seus olhos passeiam ansiosos pela rua. Talvez apareça algum rosto conhecido ou interessante. Depois repousam sem foco, em qualquer parede ou no chão. Pega novamente o celular e recomeça a sessão de ligações não atendidas. Pensa em voltar para casa, mas lá também estará sozinha. E esse dia cinza não ajuda em nada. Esfrega o peito, na tentativa de limpar algo de dentro, incomodando, apertando, doendo. Gira o anel. Foi presente da mãe. Sempre sonhou mostrar às amigas o anel, presente do noivo, do marido. Não teve noivo, não teve marido. Ainda. Esperem e vou encontrar o homem certo. Endireita-se na cadeira, dá uma espiada no espelho, na parede da frente, e toma um gole de suco para afrouxar a garganta. Respira fundo, dando ao coração uma chance de retomar o ritmo. Entra o homem do casaco cinza e ela vira-se com a graça de uma bailarina de caixa de música. Pérola, a gatinha, espicha seus olhos, retorce o corpo e me acaricia com o rabo. Já não posso ficar indiferente. Deixo a moça do café entregue a mais uma tentativa e vou brincar com essa pequena faceira.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Capim rabo de rato
Tenho um carinho especial pelo outono. Esse tempo é e deixa de ser a cada momento. Nos recolhe e nos deixa ao léu. Tempo de espera, de incertezas. Chega de mansinho e vai entrando, sem pedir licença. Sopra um segredo ao ouvido, traz de longe uma canção há muito esquecida. De repente estamos naquele sofá, junto à janela, fotografias amareladas pelo tempo, em busca de qualquer coisa do passado como um fio, ao menos, que nos impeça de naufragar no presente.
A cada
ano fico na espreita para sentir sua primeira brisa, sua primeira carícia em
minha pele. Nesse momento em que começamos a pegar nossos agasalhos, envolver
nossos pescoços com cachecóis macios, a tirar os cobertores do armário e a
recolher nossas almas ao universo interior, meu desejo é montar no vento e
correr mundo, correr tempo, espalhar minha alma sobre os campos de capim “rabo
de rato” da minha cidade.
Um
campo roxo e aveludado convidava, inspirava ideias loucas na minha
adolescência. Ali meus sonhos voavam com o vento, brincavam de amarelinha,
andavam pelos jardins de palácios, ao lado de príncipes encantadores. Os amores eram possíveis e não havia o medo da
solidão. Cavalgava pelo deserto fugindo das sombras de guerreiros nômades. Doía
em meu peito uma saudade imensa e eu queria ir...
Já não dói mais, essa saudade. Aquietou-se em alguma veia gasta pelo tempo, deixando um vazio cálido e um gosto de ferrugem na boca. Esse vazio cresce ainda quando sobra a primeira brisa do duplo outono, aqui, em terra distante, onde não vejo o roxo manto do meu sonho, o suave veludo onde guardei meus anos dourados.
Já não dói mais, essa saudade. Aquietou-se em alguma veia gasta pelo tempo, deixando um vazio cálido e um gosto de ferrugem na boca. Esse vazio cresce ainda quando sobra a primeira brisa do duplo outono, aqui, em terra distante, onde não vejo o roxo manto do meu sonho, o suave veludo onde guardei meus anos dourados.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Casa com vista
Clara abre a porta. Vai regar as flores, uma das tarefas
mais prazerosas do momento. Abaixa-se para pegar a mangueira e quando se ergue
leva um susto. Vê um homem parado na frente da casa, olhando como se tivesse
perdido um pouco da consciência. Como aconteceu com ela quando seu carro foi
parar no meio do canteiro e ela não se lembrava de nada.
Estatura mediana, forte, cabelos claros e um tanto
crescidos. Muitas tatuagens nos braços. Os olhos, verdes, estão cheios dos sons
da água corrente. Mãos fortes, mas delicadas. Trinta e cinco anos? Meu Deus! Rapidamente ela faz a ficha inicial.
Procura casa para alugar. Trabalho de um lado, a filha do
outro. Aqui é meio tempo entre os dois.
- Já vi algumas casas, mas nenhuma delas tem a exata
medida da minha necessidade. Uma vista para o poente. Preciso ver que as coisas
mergulham e vão, deixando outras virem atrás de si. Como o sol, a cada dia.
Esta casa tem isso, uma linda vista do entardecer.
-Sim. Eu escolhi.
Cozinha-se, no verão, apenas com o calor do sol. Comida viva! Conhece? - diz
Clara, rindo. Ainda precisam crescer algumas árvores desse lado. Já plantei uma
ali.
-Gosto muito de calor. Preciso dele.
- E o vento sul atravessa a varanda com a desfaçatez de
quem se sente o dono.
-Dependo dele; sou paraquedista.
-Uau! Sempre sonhei em pular de paraquedas, mas devo
ter-me esquecido de colocar na lista de desejos antes de descer no bico da
cegonha. Por que não se pode descer de paraquedas?
Enquanto conversam, ele anda em volta da casa e Clara o
segue, meio sem saber o que fazer. Gosta da cor da parede e fica parado olhando
para a roseira no canto do jardim.
- Uma porta aqui, dando para o jardim, ficaria perfeita.
Uma mesa para o café da manhã a dois. Do outro lado, ao sol poente, um deck, de
onde se possa vê-lo partir a cada dia.
- Sim, é minha intenção, no futuro.
- Não está alugando? Ouvi alguma coisa.
-Apenas por um mês. Só as férias. Está tudo incerto
ainda.
Ela pega um vaso para mudar de lugar e ele se apressa em
ajudar. Sente suas mãos. Mãos fortes,
como ela sempre procurou. Mãos acostumadas a segurar cordas, ou pequenos fios
de vida, nas alturas. Inspiram segurança, esses calos, essa pele áspera e
queimada de sol.
-Como é seu nome mesmo? Everton?
-Jackson.
-Jackson.
Pois é, Jackson. Não tenho ainda um roteiro definido. Também não sei se
volto depois das férias ou se fico por lá. Este é um momento de bifurcações.
-Vamos fazer assim: você aluga por um mês e depois, se
quiser voltar, podemos nos entender. Não me importo de dividir a casa com
você. Estou acostumado com isso. Se não
se importar.
- Hã... Hummm... Sim. Não! Talvez. Sim, você fica por um
mês. Talvez possamos dividir a casa depois. Por que não?
Acertam detalhes e Jackson vai embora. Meio de costas, sem
querer soltar o olhar de Clara, que o segue, limpando as mãos no avental. Assim
disfarça a vontade de ficar acenando abobada, até ele sumir na esquina.
sábado, 9 de janeiro de 2016
Encontro com ela
Ele chegara havia alguns dias. Nem alegre nem triste.
Falava pouco, ouvia muito. A máquina fotográfica na mão, à espreita. A praia
pequena, em forma de concha, acolhia seus passos por todo o dia. Com a
paciência de quem espera uma estrela cair do céu ao mar, bem aos seus pés, ele
esperava. Esperava a flor se abrir até o momento em que a abelha escorregava
para dentro do cálice perfumado. Esperava o raio de sol atravessar a folhagem
de uma árvore e alcançar o ângulo desejado, quando cintilava a gota de orvalho
a pender da manhã recém-nascida. Esperava a formiga com seu fardo alcançar o
topo de uma pedra ou folha seca e, deitado sobre a grama, aprisionava-lhe o
gesto de supremo esforço. Esperava a sabiá que descia da cumeeira, incansável,
em busca de alimento para os bicos insaciáveis de seus filhotes.
Às vezes dormia horas numa sombra na praia. Ou sumia o
dia inteiro andando pelas trilhas da floresta. Nesses dias jantava bem. Gostava
de peixe e de um copo de vinho. Pela manhã, muita fruta, que as frutas daqui são
as melhores! Ensinou aos moleques muitas brincadeiras. Ensinou a fazer a horta.
Um leve sorriso aqui e ali.
Riso mesmo, não
tinha não. Coração vazio. Se está cheio vaza pela boca. Não se contém. Vai se
derramando por onde passa.
E a moça dos olhos grandes chegou. Com a mala de quem
deixou adeus nalgum canto deste mundão. Entrou, pediu um quarto e um copo
d’água. Deitou-se numa rede e lá ficou a cantarolar alguma coisa triste.
Dormiu.
O moço voltou à tardinha e ela ainda dormia. Ele olhou,
estranhou, chegou perto para ver melhor. Afastou-se, sentou no chão e ficou
ali, olhando, até ela abrir os olhos. Não era temporada, não havia outros
hóspedes. Fiquei no meu canto, estatua de enfeite.
E eu vi. Vi seu
peito se encher de ar algumas vezes e quando exalava era um sorriso que se
derramava pelo salão.
No dia seguinte ele não trouxe a máquina. Não dormiu, não
caminhou. Apenas riu. De cada gesto da moça, cada palavra, ele ria e se
encantava.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
O grito
Caminho pela calçada da Rua das Flores como faço todos os
dias às cinco e trinta da tarde. Uma hora de caminhada para ver o dia se
despedir na beira do rio. É minha meditação diária. Ajuda a digerir todas as
impressões gravadas na alma e guardadas no estômago. Há menos pessoas na rua
hoje. Estranho a falta de Dona Carmen, a espanhola, andando no sentido oposto
com seus poodles. Não se sabe muito dela. Apenas que vive sozinha, gosta de
cães e tem renda suficiente para viver tranquila. Sorri, diz boa tarde e ralha
com seus pequenos amigos enquanto eles latem para mim. Tive um sonho estranho
onde via muitas mãos sujas de sangue. Acordei com um grito. Lá vem Seu Juvenal,
num andar descompassado, batendo com a bengala na calçada. Está sempre
sorrindo, caso encontre alguém. Digo boa tarde, Seu Juvenal, e ele responde
alargando o sorriso. Derramei café na minha toalha preferida. Amanhã passo na
lavanderia. Marta passa, apressada, com pães e bolos para o jantar dos patrões.
Tem trinta anos e trabalha para a família Nogueira há quinze. Dizem que tem um
namorado. Dizem que é mentira. Alguns falam de uma relação pecaminosa. Outros,
de um ser alienígena. Não sei. Todos os dias busca o pão. Com olhar sempre no
chão, anda mais rápido hoje. A mão direita enrolada no pano da saia longa. Um
arrepio me corre a espinha. Não cumprimenta ninguém. Não consegui terminar a
revisão para a Revista Clavícula. Foi um tropeço. Não entregaram as fotos para
o fechamento. Falo com eles amanhã cedo. Um grupo de jovens cruza a rua, na volta
da escola, com seu riso solto sacudindo a tarde. Viram a esquina rumo à
lanchonete. Avisto a pequena ponte sobre o rio. De madeira trabalhada, feita
pelos moradores para festejar o centenário da cidade. O sol se aproxima do
horizonte e apresso o passo para vê-lo ainda nas águas. Debruço-me sobre a
ponte e deixo o olhar se alongar até onde o leito some na curva. Aqui já não
quero pensar, apenas deslizar sobre a vida, sobre as nuvens laranjas e azuis se
misturando em magenta. Promessa de frio. Uma brisa sopra pelas minhas costas e
com ela vem um gemido de cão, baixinho. Olho para a margem, lá embaixo e vejo
os pequenos poodles de dona Carmen amarrados a um arbusto. Na minha garganta um
grito se solta.
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