Rosa chegou cedinho ao hospital, depois de viajar a noite
toda. Corpo cansado, alma aflita. Uma dor no peito a incomodava havia algumas
horas.
Uma sala ampla, clara com grandes vidraças e sofás confortáveis,
cheios de gente à espera. No meio do salão, como uma divisória, uma estante vai
até o teto, cheia daquelas bonecas de cabaça, muito coloridas, tentando dar um
ar alegre àquele espaço frio, apesar do calor infernal. Atrás da estante, o
balcão de atendimento. Os lustres são grandes aros de madeira.
Ao lado deste, uma
enorme porta-pivô gira para-lá-e-para-cá deixando passar médicos e enfermeiras.
Por outra porta passam doentes e visitantes. Às vezes alegres, às vezes
tristes, com sono, amarrotados, esperançosos, aflitos.
Rosa olha tudo e todos, calmamente, medindo cada
cantinho, cada pessoa. E se dirige ao balcão.
Quando soube da internação de Nely não pensou duas vezes.
Arrumou uma malinha com alguns pertences e pegou o primeiro ônibus para
Salvador. Precisava visitar sua amiga.
Desde crianças eram muito ligadas. Nas brincadeiras de
boneca, nos sonhos de garotas, nos segredo e confidências da adolescência.
Estavam sempre juntas.
Separaram-se algumas vezes, mas sua amizade não se
ressentia com a ausência. Era sempre mais forte quando se reencontravam.
Aos 25 anos Nely foi morar na capital. Estudou e
tornou-se professora. A mais querida, nas escolas por onde passou. E viveu
sempre sozinha. Nunca encontrou o homem dos seus sonhos. Teria sido Gonçalo? Ela
o afastou do coração pensando que Rosa o queria
Rosa casou-se depois, com Otávio. Teve filhos e netos.
Mas nunca a impediram de visitar a amiga se esta se sentia sozinha. Lembra
aquela vez quando você me ligou chorando porque quebrou o salto do sapato e
torceu o pé?
Nely sempre ia ter
com Rosa a cada filho que nascia – e foram muitos. Vou ajudá-la a parir seus
filhos, Rosa. Não terei os meus.
Quando Otávio se foi, levado por um infarto, Nely deixou
seus alunos com a diretora, no meio da manhã, e correu ao encontro da amiga com
seu abraço seguro.
Agora isso. Nely internada, com um tumor no cérebro. E
sem parentes que cuidem dela!
Rosa se aproxima do balcão.
- Quero ver Nely Figueira, por favor.
- Agora não é possível, senhora. O horário de visita é só
às 16 horas. Ela está na UTI.
- Ai, meu Deus, moço! Eu vim de tão longe. Sempre
estivemos juntas, na alegria e na tristeza.
- Desculpe, senhora, volte à tarde.
É seca a resposta. Ela não consegue dizer mais nada.
Humilde e cansada, senta-se num banco. Recosta-se como pode e se prepara para a
espera. Essa dor é de cansaço, de mau jeito no ônibus, vai passar logo.
As lembranças vêm aos bandos e ela lhes manda fazer fila.
Atenderá todas elas. É uma forma de estar antes com a amiga.
E começa a passar o filme de suas vidas, desde pequeninas,
vizinhas, em Riachão dos Bois. Lembra o dia que você chegou? O caminhão da
mudança estava parado em frente à casa branca. Você olhou para a minha casa e
perguntou: - Mamãe, nossa casa é a casa rosa, não é? E não sossegou até seu pai
prometer pintar o seu quarto de rosa. Então você se aproximou mais e perguntou
meu nome.
Rosa, de tão cansada, dorme. E sonha. Está de malas
prontas para viajar.
Sua primeira viagem de avião. Um medinho inconfessável
lhe aperta o estômago e faz tremer-lhe as pernas. As pontas dos dedos esfriam e
ela os guarda nos bolsos, junto com a passagem. Não sabe para onde, mas é
preciso ir. Há muitas outras pessoas na sala de espera. O embarque será logo.
Depois de algum
tempo ela desperta, descansada, leve, apesar do banco duro. Levanta, estica o
corpo e olha as horas. Onze e trinta e oito! Ainda falta tanto tempo! Vou andar
um pouco para esticar as pernas.
Ao aproximar-se da porta que leva ao interior do
hospital, ela para, surpresa e alegre. Nely, querida, você já saiu? Já está bem?
Rosa, você veio! Estou bem, estou bem. Vamos, venha comigo. Veja, Otávio está
nos esperando.
O corpo de Rosa cai, frio, sobre a moça sentada ao seu
lado. Esta, assustada, começa a gritar.