sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Maria das Dores







Vamos lá, Candinha. Tá escuro ainda e um frio de roer o osso da canela. Mas vou atrás dessa história. Lá sou gente de ficar pela metade? Só volto com todo o filó cosido, sem faltar um ponto. Zequinha não é homem de desfeitas. Esse povo tem uma língua tão grande que quando chega numa ponta da rua ainda se avista ela arrastando na outra. Vamos lá, antes que a cidade acorde. Ninguém precisa saber. Só você, pois não quero andar por aí sozinha essas horas. Podem botar maldade e eu sou mulher direita. Tive, sim senhora. Teve aquela história lá do filho do Coronel Bicudo, mas não tirou pedaço de ninguém. E o que tá lavado tá limpo, num é? Não vá abrir essa boca, tá me entendendo? Tiro tudo a limpo e volto com tempo de fazer o café.  Ele tá é fazendo serão pra ajudar a pobre da mãe doente, morre não morre. Muito remédio. Pra semana vou lá visitar. Sogra é sempre sogra, me deu um bocadinho de trabalho tirar o filho de casa, mas na hora da morte todo mundo fica bom, num é mesmo? Ela até nem é tão rabugenta. Chegou mesmo a me comprar um vestido de chita, uma vez. Pra você não dizer mal de mim por aí, Maria. Eu achei o Zeca, é eu achei mesmo. Ele andava perdido lá pras bandas da Vila Alta. Eu voltava de um velório na casa de seu Vital e dei de cara com ele, puxando as rédeas do cavalo, desenxabido. Cá pra nós, mais um pouco e chorava. Me olhou com aqueles olhos de cachorro abandonado e eu, tão piedosa e inocente, acreditei em toda a ladainha. Estava escuro, perdi a entrada pra Capinzal, onde ia vender um gado e vim parar aqui. Mas era tudo mentira. Maroca bem me alertou, mas não dei ouvidos. Eu solto o osso e ela pega. A tal fazenda de gado leiteiro existia mesmo, mas ele era o vaqueiro. Foi mandado embora porque se engraçou da filha do patrão. Caiu na bebedeira e saiu por aí, procurando outro pouso. Agora trabalha na fábrica. Só tinha mesmo uma casinha na vila onde morava com a mãe e duas irmãs. Estas faziam todo o trabalho para agradar o homem da casa. A mãe fazia questão. Eu já estava perdida de amores e podia muito bem morar num canto qualquer, sendo com ele. E olhe, já são seis anos de viver junto sem queixa. E ele gosta muito das crianças. De uns tempos pra cá ele até tem trabalhado mais. Não vejo lá o bolso mais cheio não, mas ele diz que é assim mesmo. Quanto mais a gente ganha mais deve. E tem os remédios da mãe, não é? É um serão atrás do outro. Se falta funcionário, só tem Zequinha pra tampar buraco. O pobre chega em casa cansado de dar dó. Estamos chegando. Olha lá a casa da sirigaita. Vai ser rapidinho. É só dar bom-dia, com licença e até logo. Você vai ver, ela tá sozinha. Fique aqui. Eu bato lá, faço o que vim pra fazer e já volto. Oh, Zequinha, veja quem bate tão cedo. Se for cobrador, resolva aí. E passe um café. Eu preciso dormir mais um bocadinho.


3 comentários:

  1. Querida, gostei muito. Da naturalidade, do linguajar tipico, da brasileirice gostosa de ler, "ouvir", imaginar...
    Grande abraço e até....
    Ma.Estella

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  2. Antonieta, vc está se desenvolvendo muito bem como contista. A gente pode notar que de uma história para outra vc fica mais à vontade e traz um colorido mais forte. Como disse a Maria Estela no comentário acima, é muito gostoso ler brasileirices e linguajares típicos.

    Parabéns pela boa produção literária e um grande abraço,

    Anjee

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  3. Obrigada Maria Estella e Anjee. Realmente, o exercício é escrever para aprender.

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