sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O vestido encarnado




Anda pela rua com seu vestido encarnado e um chapéu de palhinha. Bem surrados, os dois. Uma chinela velha, desemparelhada. Muito pó de arroz e o batom vermelho que Jandira lhe deu. Pra você andar bonita, Zefinha. O corpo delgado, o rosto fino e gasto, queimado de sol e de lágrimas. Quando as tinha, pois um dia secaram e não voltaram mais. Nos braços o seu bebê.
Antes disso até sorria. Não era de todo esquecida dos deuses. As meninas brincavam com ela, levavam-na para casa e davam-lhe de comer de tudo que havia. Às vezes recebia pequenas tarefas das senhoras. Zefinha, você pode entregar esta costura da dona Margarida? Com muito prazer, dona Ilda. Zefinha, amanhã você quer me ajudar a fazer biscoitos? Com certeza, dona Joana. E depois sempre ganhava um agrado. Vivia com dona Jura. Beata piedosa e de posses, lhe dava obrigações, para educá-la nas leis de Deus, mas não abusava de suas poucas forças. A doença que levou sua mãe deixou-a fraca dos nervos.
Mocinha feita, ela pediu à mãe adotiva um vestido encarnado. De uma amiga ganhou um batom e um laço para os cabelos. Com um juízo precário das lições aprendidas com D. Jura, logo se deixou levar pelos garotos para trás de um muro e outro, das moitas frescas do verão e assim fez seu aprendizado das coisas do amor. Não havia tranca ou ameaça de purgatório que segurasse Zefinha quando ouvia o chamado.
De uma vez, trouxe com ela um pequeno ser palpitando nas entranhas. E até aprendeu a bordar e costurar para fazer o enxoval do seu bebê. As meninas ajudaram. Não podiam ser mais suas amigas e D. Jura juntava-as na igreja para ajudarem no enxoval.
Contava a todos a novidade. Sua alegria se espalhou pela cidade. Todos queriam dar alguma coisa. Se olhava para alguma guloseima na padaria seu Manoel dizia: dá-lhe Maria. Não vá nascer o menino com cara de pastel. Saía do mercado com a sacola cheia de frutas. Para matar o desejo.
Os olhos de Zefinha brilhavam assim como crescia a barriga. Nada lhe dava mais alegria. Esqueceu-se dos muros, das moitas e dos rapazes. Só pensava em seu bebê.
E chegou o dia do parto de Zefinha. Não cabia em si e nem ligou para dor nenhuma. Tomou nos braços o rebento mas não ouviu-lhe o choro. Sacudiu, bateu e não ouvia nada. D. Jura tirou-lhe dos braços a criança morta e então sua alma se partiu. Dona Jura costurou uma grande boneca de panos, vestiu, enrolou em cueiros.

Passa os dias e noites ninando seu bebê, brincando com ele, dando-lhe o peito. Aonde vai, Zefinha carrega o filho aconchegado ao colo e canta uma cantiga de ninar.

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