É setembro, mais uma vez.
Quando todas as promessas se renovam. Quando desistir é passado. Uma
corrente de energia nova transpassa cada átomo. Nada peço. Sinto essa hora como
nenhuma outra. Hora onde fadas tecem novos enredos para os sentidos cansados
dos viventes.
E uma gota de noite ameaça cair sobre nós.
O vento sopra em minha
nuca contando histórias de um tempo onde
tudo pode ser. Conta do amor chegando sem aviso e se instalando sem pudor à
minha volta. A terra exala o perfume da última chuva há tanto esperada.
No horizonte uma gota de noite sorri, descarada.
Os cheiros da noite se misturam ao da grama cortada e entram
pelas minhas narinas, acendem lembranças doloridas, vivas ainda na pele. Foi
ontem apenas. Será sempre.
Uma gota de noite se mantém suspensa aquela vez.
Como um sonho há muito não sonhado, teu braço moreno envolve a
solidão do meu corpo e revolve as entranhas esquecidas. As seivas da primavera
desperta se misturam às minhas num caudal, rompem comportas e se espalham. Teu
riso claro e leve soa em meus ouvidos e tua palavra se mistura ao silêncio em
minha boca.
Da boca da noite uma gota se derrama em nós.
Os raios do sol se pondo iluminam desse laranja rosado todo o
lado do céu a oeste e se derramam sobre os campos, lá embaixo. Rimos das coisas
tolas que falamos sem perceber sua pouca importância. Rimos das borboletas que
voam ao redor em seu ritual de acasalamento. Dos pássaros ensaiando seu canto
para um galanteio à parceira. Todos os seres cintilam nessa nova era.
E a boca da noite se
abre sobre o dia findo.
O sol se vai. A noite pousa sobre nós como um véu. Envolve
esse mundo de luz a nossa volta e nos desliga de todo passado, de todo futuro. Cai
como a gota de chuva pendurada num raio de sol. Desfaz amarras, solta as almas
sedentas de aconchego e as transporta no leito de um rio de verão.
Mais uma gota de noite desfaz-se na escuridão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário