sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Uma gota de noite





É setembro, mais uma vez.  Quando todas as promessas se renovam. Quando desistir é passado. Uma corrente de energia nova transpassa cada átomo. Nada peço. Sinto essa hora como nenhuma outra. Hora onde fadas tecem novos enredos para os sentidos cansados dos viventes.
E uma gota de noite ameaça cair sobre nós.
 O vento sopra em minha nuca contando histórias de um tempo  onde tudo pode ser. Conta do amor chegando sem aviso e se instalando sem pudor à minha volta. A terra exala o perfume da última chuva há tanto esperada.
No horizonte uma gota de noite sorri, descarada.
Os cheiros da noite se misturam ao da grama cortada e entram pelas minhas narinas, acendem lembranças doloridas, vivas ainda na pele. Foi ontem apenas. Será sempre.  
Uma gota de noite se mantém suspensa aquela vez.
Como um sonho há muito não sonhado, teu braço moreno envolve a solidão do meu corpo e revolve as entranhas esquecidas. As seivas da primavera desperta se misturam às minhas num caudal, rompem comportas e se espalham. Teu riso claro e leve soa em meus ouvidos e tua palavra se mistura ao silêncio em minha boca.
Da boca da noite uma gota se derrama em nós.
Os raios do sol se pondo iluminam desse laranja rosado todo o lado do céu a oeste e se derramam sobre os campos, lá embaixo. Rimos das coisas tolas que falamos sem perceber sua pouca importância. Rimos das borboletas que voam ao redor em seu ritual de acasalamento. Dos pássaros ensaiando seu canto para um galanteio à parceira. Todos os seres cintilam nessa nova era.
 E a boca da noite se abre sobre o dia findo.
O sol se vai. A noite pousa sobre nós como um véu. Envolve esse mundo de luz a nossa volta e nos desliga de todo passado, de todo futuro. Cai como a gota de chuva pendurada num raio de sol. Desfaz amarras, solta as almas sedentas de aconchego e as transporta no leito de um rio de verão.
Mais uma gota de noite desfaz-se na escuridão.

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