Eleusina é seu nome. Nascida
no interior, boa formação acadêmica, certa rigidez religiosa. Sobre o pecado
foi-lhe explicado infinitas vezes pela mãe, pela avó, pelo pastor da sua
igreja. E pelas colegas de escola. Reduziam a concorrência. Por lá também os
rapazes eram poucos.
O Universo conspirara a seu
favor, dando-lhe um corpo saudável e um rosto adorável
A qualquer momento
o amor bateria em sua porta, pediria licença, pediria a sua mão, e iriam juntos
ao altar. O caminho seguro para a felicidade.
De natureza afogueada por
dentro, por fora aparentava uma calma de quem já vislumbrava o doce encontro
com sua alma gêmea. Seus órgãos dos sentidos eram verdadeiros rastreadores.
Detectavam um rapaz antes mesmo de ele dobrar a esquina, mas suas amigas se
adiantavam e o levavam para longe dela. Não fosse cair em tentação.
E Eleusina seguiu a vida em
sua rotina. Trabalhou e rezou. Mais para encurtar a espera que pelo bem geral
da Humanidade.
Um dia seu trabalho a levou a
outra cidade. Sozinha. Nas horas vagas procurou igrejas, parques, cinemas e
museus. Admirava uma tela com duas meninas orando enquanto a mãe lhes servia a
refeição. A cena tocou-lhe a alma causando profunda comoção. As lágrimas lhe
corriam pelo rosto como o fio de água ao brotar da pedra, caminho aberto em
busca de um leito que a acolhesse.
Sentiu alguém ao seu lado e recompôs-se. Era o homem que observava o
“Jardim das delícias”, de Bosch, quando ela entrou. Ela o notou, mas ele estava
muito atento àquela obra obscena.
– Uma bela cena, não é? - disse ele, perto do
seu ouvido. – Lindas meninas!
Um frio intenso correu-lhe
pela espinha deixando um tom amargo, quase imperceptível, em sua garganta. Era
como se uma nuvem tivesse encoberto o sol, lá fora, e sua alma sentisse o gosto
da sombra a envolver-lhe os ossos.
Ele é tão gentil, ela
pensou. Ofereceu-lhe o braço e
percorreram as galerias do museu fazendo observações espirituosas a cada
quadro. Ela sorria para tudo e respondia aos gracejos dele com sua risada
solta, suave.
Chegaram ao hotel. Ele subiu
com ela como se fizesse isso há muitos anos. E só saiu no dia seguinte, quando
ela saiu para o trabalho.
Naquele dia ela voltaria para
casa. Com a promessa dele de ir em seguida, conhecer a família e formalizar o
noivado.
Passaram uns dias. Do outro
lado da linha alguém respondeu. É engano, não há ninguém com esse nome.
Eleusina sentiu aquele mesmo frio na espinha. A sombra pousou sobre sua cabeça.
Emagrecia e seus olhos já não
refletiam a luz do sol. Seu pai notou. Problemas no trabalho, um salgado de
feira. Logo passa.
Não passou. A sombra deslizou
e encontrou abrigo em seu coração.
Naquela manhã não foi
trabalhar. Saiu do consultório e perambulou pela cidade, sem rumo, até as
pernas lhe faltarem. Depois de breve
exame e um ultrassom o médico dissera: Parabéns! São duas meninas!
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