sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Feliz Aniversário, Bell



O copo está vazio já há algum tempo e ninguém aparece para lhe fazer um brinde. É seu aniversario de 20 anos! Como podem fazer isso? Ela sempre se lembra de todos, faz festa para cada um. Agora está ali sozinha, depois de duas taças de vinho.
Olha mais uma vez para a porta se abrindo. Não são eles. Pede um cigarro, a conta e sai do bar. É agosto e o vento chicoteia seu rosto, entorpece seus sentidos. Fecha bem o casaco, abre a bolsa e confere o telefone. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Disca um numero, espera um instante e desliga. Caminha contra o vento durante algum tempo perguntando-se o porquê de cada um não ter aparecido. Não encontra nenhuma razão plausível. Agora já não segura as lágrimas, deixa-as correrem livres pelo rosto já borrado. É preciso acabar com essa dor.
Continua andando pela rua larga que leva ao outro lado da cidade. Pessoas passam ao seu lado, mas ela não percebe. Está só, é verdade. Namorado, não tem. Não encontrou ainda ninguém que lhe prendesse a atenção. Na família, apenas o irmão consegue penetrar naquela redoma criada em volta de si. Mas esse irmão está muito longe, certamente não conseguirá ligar.
A mãe, depois de um acidente, sofrera na cama alguns anos e depois morrera, deixando-a ainda garota. O pai, sentindo-se culpado pela morte da esposa, ficou sombrio e quando chegava do trabalho entregava-se à bebida, dando pouca atenção aos filhos. Bell era mais velha e sustentara o peso da família desde cedo. Cuidara do irmão, da casa e, depois, do próprio pai, nos momentos difíceis.
Começou a trabalhar cedo para garantir que nada faltasse, mas não deixou de estudar. Os livros eram sua âncora.
Andou mais um pouco e parou diante de uma casa iluminada onde se festejava um aniversário. Ficou ali parada, ouvindo a música e as vozes alegres daquelas pessoas felizes. Cantou junto com eles o “parabéns pra você”, deu-se um abraço e chorou sentada na calçada, um pouco escondida.
Depois de algum tempo retomou a caminhada em direção à grande ponte que dividia a cidade ao meio. Por que não? A mãe está lá, acenando para ela, sorrindo. Irá até lá para abraçá-la e acalmar seu coração tão sozinho. Segue em frente. Seu olhar brilha mais a cada passo.
De repente para. Tudo nela estremece. Abre a bolsa e pega o telefone. Há uma mensagem. Do pai. E diz apenas: filha...
Abre a porta da casa e vê o pai.
Naquele dia ele não bebera. Sobre a mesa havia um bolo, muitas flores, velas e um pequeno presente.




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