O copo está vazio já há algum tempo e ninguém
aparece para lhe fazer um brinde. É seu aniversario de 20 anos! Como podem fazer
isso? Ela sempre se lembra de todos, faz festa para cada um. Agora está ali
sozinha, depois de duas taças de vinho.
Olha mais uma vez para a porta se abrindo. Não
são eles. Pede um cigarro, a conta e sai do bar. É agosto e o vento chicoteia seu
rosto, entorpece seus sentidos. Fecha bem o casaco, abre a bolsa e confere o
telefone. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Disca um numero, espera um
instante e desliga. Caminha contra o vento durante algum tempo perguntando-se o
porquê de cada um não ter aparecido. Não encontra nenhuma razão plausível. Agora
já não segura as lágrimas, deixa-as correrem livres pelo rosto já borrado. É
preciso acabar com essa dor.
Continua andando pela rua larga que leva ao outro
lado da cidade. Pessoas passam ao seu lado, mas ela não percebe. Está só, é
verdade. Namorado, não tem. Não encontrou ainda ninguém que lhe prendesse a
atenção. Na família, apenas o irmão consegue penetrar naquela redoma criada em
volta de si. Mas esse irmão está muito longe, certamente não conseguirá ligar.
A mãe, depois de um acidente, sofrera na cama
alguns anos e depois morrera, deixando-a ainda garota. O pai, sentindo-se culpado
pela morte da esposa, ficou sombrio e quando chegava do trabalho entregava-se à
bebida, dando pouca atenção aos filhos. Bell era mais velha e sustentara o peso
da família desde cedo. Cuidara do irmão, da casa e, depois, do próprio pai, nos
momentos difíceis.
Começou a trabalhar cedo para garantir que nada
faltasse, mas não deixou de estudar. Os livros eram sua âncora.
Andou mais um pouco e parou diante de uma casa
iluminada onde se festejava um aniversário. Ficou ali parada, ouvindo a música
e as vozes alegres daquelas pessoas felizes. Cantou junto com eles o “parabéns
pra você”, deu-se um abraço e chorou sentada na calçada, um pouco escondida.
Depois de algum tempo retomou a caminhada em
direção à grande ponte que dividia a cidade ao meio. Por que não? A mãe está
lá, acenando para ela, sorrindo. Irá até lá para abraçá-la e acalmar seu
coração tão sozinho. Segue em frente. Seu olhar brilha mais a cada passo.
De repente para. Tudo nela estremece. Abre a
bolsa e pega o telefone. Há uma mensagem. Do pai. E diz apenas: filha...
Abre a porta da casa e vê o pai.
Naquele dia ele não bebera. Sobre a mesa havia um
bolo, muitas flores, velas e um pequeno presente.
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