Vamos lá, Candinha. Tá escuro ainda e um frio de roer o osso
da canela. Mas vou atrás dessa história. Lá sou gente de ficar pela metade? Só
volto com todo o filó cosido, sem faltar um ponto. Zequinha não é homem de
desfeitas. Esse povo tem uma língua tão grande que quando chega numa ponta da
rua ainda se avista ela arrastando na outra. Vamos lá, antes que a cidade
acorde. Ninguém precisa saber. Só você, pois não quero andar por aí sozinha
essas horas. Podem botar maldade e eu sou mulher direita. Tive, sim senhora.
Teve aquela história lá do filho do Coronel Bicudo, mas não tirou pedaço de
ninguém. E o que tá lavado tá limpo, num é? Não vá abrir essa boca, tá me
entendendo? Tiro tudo a limpo e volto com tempo de fazer o café. Ele tá é fazendo serão pra ajudar a pobre da
mãe doente, morre não morre. Muito remédio. Pra semana vou lá visitar. Sogra é
sempre sogra, me deu um bocadinho de trabalho tirar o filho de casa, mas na
hora da morte todo mundo fica bom, num é mesmo? Ela até nem é tão rabugenta.
Chegou mesmo a me comprar um vestido de chita, uma vez. Pra você não dizer mal
de mim por aí, Maria. Eu achei o Zeca, é eu achei mesmo. Ele andava perdido lá
pras bandas da Vila Alta. Eu voltava de um velório na casa de seu Vital e dei
de cara com ele, puxando as rédeas do cavalo, desenxabido. Cá pra nós, mais um
pouco e chorava. Me olhou com aqueles olhos de cachorro abandonado e eu, tão
piedosa e inocente, acreditei em toda a ladainha. Estava escuro, perdi a
entrada pra Capinzal, onde ia vender um gado e vim parar aqui. Mas era tudo
mentira. Maroca bem me alertou, mas não dei ouvidos. Eu solto o osso e ela
pega. A tal fazenda de gado leiteiro existia mesmo, mas ele era o vaqueiro. Foi
mandado embora porque se engraçou da filha do patrão. Caiu na bebedeira e saiu
por aí, procurando outro pouso. Agora trabalha na fábrica. Só tinha mesmo uma
casinha na vila onde morava com a mãe e duas irmãs. Estas faziam todo o
trabalho para agradar o homem da casa. A mãe fazia questão. Eu já estava
perdida de amores e podia muito bem morar num canto qualquer, sendo com ele. E
olhe, já são seis anos de viver junto sem queixa. E ele gosta muito das
crianças. De uns tempos pra cá ele até tem trabalhado mais. Não vejo lá o bolso
mais cheio não, mas ele diz que é assim mesmo. Quanto mais a gente ganha mais
deve. E tem os remédios da mãe, não é? É um serão atrás do outro. Se falta
funcionário, só tem Zequinha pra tampar buraco. O pobre chega em casa cansado
de dar dó. Estamos chegando. Olha lá a casa da sirigaita. Vai ser rapidinho. É
só dar bom-dia, com licença e até logo. Você vai ver, ela tá sozinha. Fique
aqui. Eu bato lá, faço o que vim pra fazer e já volto. Oh, Zequinha, veja quem
bate tão cedo. Se for cobrador, resolva aí. E passe um café. Eu preciso dormir
mais um bocadinho.
Querida, gostei muito. Da naturalidade, do linguajar tipico, da brasileirice gostosa de ler, "ouvir", imaginar...
ResponderExcluirGrande abraço e até....
Ma.Estella
Antonieta, vc está se desenvolvendo muito bem como contista. A gente pode notar que de uma história para outra vc fica mais à vontade e traz um colorido mais forte. Como disse a Maria Estela no comentário acima, é muito gostoso ler brasileirices e linguajares típicos.
ResponderExcluirParabéns pela boa produção literária e um grande abraço,
Anjee
Obrigada Maria Estella e Anjee. Realmente, o exercício é escrever para aprender.
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