sábado, 30 de janeiro de 2016

Pérola







Às vezes só preciso de uma deixa. Solto a torrente de palavras aprisionadas no fundo de uma alma descabida. A gata está sobre a janela. Tiro-lhe uma foto e ela se acha o centro das atenções. Pula sobre a mesa e atravessa para um lado e para o outro. Sobre o computador. Sempre tive horror a gatos. Não sei se algo ancestral ou se por causa do gatinho que ganhei quando criança. Levei-o para casa, aconchegado no colo, mas sempre assustada com suas unhas afiadas no meu pescoço. Depois de alguns dias já não o queria mais. Carrego ainda a marca dos seus dentes no pulso. Desde então sei que detesto gatos, mas eles talvez não saibam. Era só chegar numa casa e o gato vinha logo ajeitar-se no meu colo. Pedia socorro à dona da casa. Ela o tirava, mas logo estava lá novamente, alojado, desfiando minhas roupas, enchendo-me de um pavor desconhecido. E eu não era mais uma criança. Eles limpam o campo energético da pessoa. É possível, mas acho que esta gatinha está é sofrendo de solidão. Sim, ela quer as atenções. Como eu as quero. E você também. E a moça do café. Sentada à mesa, ela espera. A empada, o suco, o tempo passar. Finge tranquilidade, finge estar à vontade no mundo, mas por dentro sente uma solidão de pedra em beira de estrada. A todo o momento, pega o telefone e chama alguém, que nunca responde. Seus olhos passeiam ansiosos pela rua. Talvez apareça algum rosto conhecido ou interessante. Depois repousam sem foco, em qualquer parede ou no chão. Pega novamente o celular e recomeça a sessão de ligações não atendidas. Pensa em voltar para casa, mas lá também estará sozinha. E esse dia cinza não ajuda em nada. Esfrega o peito, na tentativa de limpar algo de dentro, incomodando, apertando, doendo. Gira o anel. Foi presente da mãe. Sempre sonhou mostrar às amigas o anel, presente do noivo, do marido. Não teve noivo, não teve marido. Ainda. Esperem e vou encontrar o homem certo. Endireita-se na cadeira, dá uma espiada no espelho, na parede da frente, e toma um gole de suco para afrouxar a garganta. Respira fundo, dando ao coração uma chance de retomar o ritmo. Entra o homem do casaco cinza e ela vira-se com a graça de uma bailarina de caixa de música. Pérola, a gatinha, espicha seus olhos, retorce o corpo e me acaricia com o rabo. Já não posso ficar indiferente. Deixo a moça do café entregue a mais uma tentativa e vou brincar com essa pequena faceira.



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