sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A rendeira da filha do rei


Lá onde as pedras sufocam, onde as plantas não têm cor, onde ao caminhar parecemos estar submersos, as naves herméticas, com visão turva, tentam avistar os transeuntes. Procuram alguém para fazer as vestes da filha do rei.  Correram várias cidades, mas não encontraram nada com a delicadeza exigida pela moça. Buscam agora pelos campos e sertões.
Lá embaixo, sob o caramanchão, na sombra da tarde, ela trabalha. Mãos rudes, pelo trabalho diário. Dedos ágeis movimentam bilros em grande velocidade sobre uma almofada. Um homem se aproxima vindo de um beco próximo.
Sabina joga-os para um lado e para o outro, retira um espinho de mandacaru e coloca logo abaixo. Os bilros dançam e novamente troca espinhos de lugar, retirando de cima e colocando embaixo, no molde. Sobre a almofada um rolo de renda branca e delicada cresce a olhos vistos. O homem cumprimenta a senhora, faz perguntas sobre seu trabalho, família. Não tenho família. Meu trabalho é esse. Vai querer comprar? Ela responde sem olhar, as mãos trocando os bilros na mesma velocidade. Ele vai como chegou. A vizinha logo se aproxima, olhos curiosos. Quem era. Não sei. Não vi. Tinha uma cor estranha. Não sei. Não vi. E troca seus bilros sem parar.
O sol se despede do dia quando Sabina recolhe a almofada e o velho corpo cansado. Pela manhã Sabina cuida da horta de onde tira o de comer, visita alguns doentes a quem leva conforto e erva santa, arruma a casa com esmero e cozinha o almoço. À hora de sempre, está sob o caramanchão com sua almofada no troc-troc dos bilros. Os vizinhos, cada um na sua vida. Um amola facas, outro tece cestos, umas tecem redes, outras tecem vida alheia.
Sabina não vê nada. Não fala com ninguém. Sua renda cresce e cresce.
E quando o sol se despede do dia, ouve-se um zumbido no céu. Um redemoinho de nuvens desce sobre o caramanchão e quando se desfaz já não avistam Sabina com sua almofada.
Diante dela está aquela sala redonda, vermelha, com pequenos quadrados verdes. Uma grande cadeira acolchoada de vermelho e a outra sentada, tronco erguido, cabelos louros muito compridos sobre o corpo. Não leva mais nada sobre ele. Sabina olha, calma. A vida já lhe deu tantas surpresas. Não é feia, a moça. É estranha. Sua pele é de um castanho esverdeado, os olhos, verdes, translúcidos, quase água de mar tranquilo. A boca pequena. Nariz quase não tem. Seus cabelos crescem sem parar, espalhando-se pela sala.

Como se falasse com os olhos ela diz a Sabina que lhe faça a veste mais bonita. E lhe mostra um grande cesto cheio de fios de cabelos dourados. Quando eu estiver vestida, eles pararão de crescer.

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