sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Alice


Segundo os astros, nasci com a sina de estar sempre em dúvida. Sempre com um pé lá e outro cá. Querendo uma coisa e o seu oposto, na mesma intensidade.
Assim, o prazer de partir é o mesmo de voltar. Quero tanto conhecer lugares novos, como me aconchegar no conhecido, no ambiente que reconhece meus hábitos e os acolhe sem pudor.
Para os amigos sou cigana, pelo número de vezes que já mudei de endereço e pelos que ainda estão por vir. É verdade, me mudei umas dezesseis vezes.
As mudanças são oportunidades de faxina, de arrumação, de descarte do supérfluo. Se ficamos muito tempo em um lugar, tendemos a juntar coisas na certeza de precisarmos delas. E aí vêm as caixas e caixas e sempre sobram algumas das quais nos despedimos sem remorsos. Ou com eles. Não cabem mais em nossa vida.
Nunca fui apegada a casas, móveis, objetos de decoração ou livros. Eles passam pela minha vida, assim como as pessoas. Pessoas que amo muito, pessoas que amo pouco, mas que não quero presas a mim. Quero-as no coração, mas livres de pés e mãos.
Com essa disposição de alma, aceitei a ideia de mudar mais uma vez. A casa feita para mim, com cada canto pensado, cada sentimento colado nas paredes para aconchegar o meu ser cansado. Todos se foram. O espaço deixado não aceita estranhezas de recém-chegados. E se fez demasiado. É preciso trocar essa veste alargada pelo tempo. Mais uma mudança.
Tomo pela mão aquilo que pensei coragem e na outra, todos os juntados da vida. Os dedos se crispam na tentativa de levar o que me foi tirado. Choro e sangro essa dor sentida e alheia. O olhar apunhalante me segue nos dias frios e úmidos da solidão compulsória.
Ali, sobre a mesa, ela me olha e chora junto. Apequeno-me para chegar até seu coração em chagas, ofereço a mão, peço-lhe perdão. Deitamos juntas, aquela noite, e ela adormece em paz.
As dúvidas, essas ainda as tenho. São dádivas dos astros. A capacidade de decisão, sinto-a um pouco mais robusta. A bagagem que se leva nos ombros adquiriu algumas preciosas peças, levadas com carinho e leveza, enquanto a mala de mão se torna também mais leve a cada dia.


4 comentários:

  1. Adorei... "Quero tanto conhecer lugares novos, como me aconchegar no conhecido"!

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  2. Adorei... "Quero tanto conhecer lugares novos, como me aconchegar no conhecido"!

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  3. Muito bom , não sei o que meus astros dizem , mas tenho a certeza que algumas semelhanças não são meras coincidências .Me identifico!

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  4. Por favor, assinem! Gostaria de saber quem são vocês.

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