Ando pelas ruas como autômato, segura pela mão que me
guia. Viro as esquinas desconhecidas e me deixo conduzir aos becos forrados de
lembranças ancestrais. Sim, há uma memória de mim entranhada em cada fresta desta
cidade onde me perco e me encontro. As pedras reconhecem meus passos e se
alongam num abraço de boas vindas.
Passo desconfiada, esgueirando-me para não tocar o
cotovelo dos que ali passaram há trezentos anos. Não devo perturbar os amantes
de hoje e de antes, sentados a um canto.
Estou só. Vejo o amor passar de braços dados, sorrindo de
nadas banais. A criança brincando com a sombra na calçada, a folha caindo, o
homem e o cão. Flores desabrochando em profusão nestes tempos de primavera. Renova-se
a natureza e as lembranças brotam nos meus canteiros mais guardados.
Abandonados. Aí renascem não só as flores.
Nosso reencontro foi num outono. Eu não queria ir,
bastava uma vista de longe, mas meu amigo insistia. Era preciso ver de perto,
por dentro. Era preciso rasgar minha carne, mais uma vez, e lavar aquele chão
com novas águas. Aquele lugar tinha o dom de revirar-me as entranhas da alma,
de extorquir-lhe até as ultimas gotas.
Descansei, depois, na ignorância dos ingênuos, como se
ali houvesse aberto e encerrado as portas do passado, como se faz com um quarto
de hotel. Um momento estéril de onde não tiramos nada, nem deixamos.
E agora, na próxima esquina, lá está ela. Toma-me o braço
com carinho e diz: demoraste. Espero-te há tempos. Vamos lá, só tu e eu. E me
leva para casa, onde me consola com pequenas mentiras de amor fingido. Sal na
ferida aberta há tanto, sem cicatrizar. Na meia luz do quarto olho para ela,
meio de lado, e pergunto, rápida, para não perder a coragem. Por que vieste tu
e não ele? Foi a mim que chamaste, ingrata! Não te lembras?
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