Segui um raio de sol e meus olhos caíram sobre o teu
vulto. Assustei-me com a luz naquele momento. Havia um brilho especial, algo de
encantamento. Despejei-me sobre a vida, como a chuva depois de um dia abafado.
Era véspera de festa. Tudo era luz e cor. Vivi assim, entre os pingos da chuva
e os raios do sol. Alimentei o amor com a essência da alma. Guardei cada gesto,
cada palavra, como pequenas pedras preciosas.
O tempo escorreu entre os dedos, a alegria desistiu de
sua morada em meus olhos, deslizou em pequenos veios líquidos e desceu pelos
cantos da boca. Senti-lhe o sal, com leve tom amargo entre os cristais
ressecados.
Cilindros de fumaça giravam a névoa do tempo. Tudo se
degradava ao toque. Lembro-me da mulher de Jó olhando para trás. Vaguei na
floresta humana atravessada entre nós. Era a solidão apanhada de surpresa. Mergulhei
nos rios de puro sangue, onde peixes vorazes consumiam meus sonhos. O ar cheirava
a enxofre das palavras condenadas, desprendidas de bocas impuras, maltratadas.
O livro de uma vida escrito em névoa, diluído. Passo com força a borracha sobre
tudo que não foi por falta de existir. Esvazio meu ser dessa insubstância
aquosa, rala, que julguei ser algum tipo de amor. Reduzo-te ao ponto inicial, insignificante, que
eras antes do devir. Nada havia lá. Só ilusão.
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