sexta-feira, 25 de março de 2016

Beatriz


Lembras como tudo começou? Como era clara a luz naquele dia? Era abril, como sempre convém. Em abril os sentimentos se libertam em meu peito e saem por aí, correndo como crianças na hora do recreio. Às vezes, ao sair, eles tropeçam uns nos outros e se machucam, choram. Alguns são sapecas, alegres e saem saltitando entre as pessoas, fazendo brincadeiras, pregando peças. Outros são tão delicados, acanhados, e qualquer estranheza faz doer. O amor doía dentro de mim como o pisar em brasas na fogueira. Não se sente, no momento. Eu não sentia, até aquele dia. A luz do sol atravessava os ramos como a flecha. A mata se alegrava com o calor ainda presente no ar e estremecia com a brisa, prenúncio de frio.
Segui um raio de sol e meus olhos caíram sobre o teu vulto. Assustei-me com a luz naquele momento. Havia um brilho especial, algo de encantamento. Despejei-me sobre a vida, como a chuva depois de um dia abafado. Era véspera de festa. Tudo era luz e cor. Vivi assim, entre os pingos da chuva e os raios do sol. Alimentei o amor com a essência da alma. Guardei cada gesto, cada palavra, como pequenas pedras preciosas.
O tempo escorreu entre os dedos, a alegria desistiu de sua morada em meus olhos, deslizou em pequenos veios líquidos e desceu pelos cantos da boca. Senti-lhe o sal, com leve tom amargo entre os cristais ressecados.

Cilindros de fumaça giravam a névoa do tempo. Tudo se degradava ao toque. Lembro-me da mulher de Jó olhando para trás. Vaguei na floresta humana atravessada entre nós. Era a solidão apanhada de surpresa. Mergulhei nos rios de puro sangue, onde peixes vorazes consumiam meus sonhos. O ar cheirava a enxofre das palavras condenadas, desprendidas de bocas impuras, maltratadas. O livro de uma vida escrito em névoa, diluído. Passo com força a borracha sobre tudo que não foi por falta de existir. Esvazio meu ser dessa insubstância aquosa, rala, que julguei ser algum tipo de amor.  Reduzo-te ao ponto inicial, insignificante, que eras antes do devir. Nada havia lá. Só ilusão.                                     

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