sexta-feira, 18 de março de 2016

Inês


São seis horas da manhã de um dia qualquer. Inês acorda com o barulho de unhas na janela. Sacode o sono, levanta, vai até a sala e lá está ele grudado no vidro da porta. Conecta o pensamento na realidade. Onde, quando, quem. Hoje, amanhã, talvez. Ou já foi. Sobressalto, ar queimando em direção aos pulmões. Mais difícil devolvê-lo. E as unhadas se repetem intercaladas por voos silenciosos em volta da casa, pousando aqui e ali. Olha para ela e retoma seu trajeto curto e insistente. Acende uma vela, faz uma oração pelos filhos. Amigos. Parentes. Calma, essas coisas não são bem assim como lhe disse a avó. Era uma mulher sábia, curandeira. Conhecia os segredos da Natureza. Contava-lhe histórias e lendas como a da cobra preta que punha o rabo na boca da criança recém-nascida e mamava o seu leite enquanto a mãe dormia.

Inês não é assim. É apenas uma mulher comum, não sabe nada dos mistérios da vida e não quer saber. Tem medo de alma, de assombração. Cuida de sua vidinha e pronto. Está de bom tamanho. Mas anda percebendo alguns sinais. Pássaros agourentos cantam perto de sua casa, borboletas entram e pousam em sua mão. Se algum bicho peçonhento se aproxima, assustada manda embora e eles viram-se e vão. E ela diz, toda prosa, ora, eles sabem quem manda aqui. Agora é isso. Um pássaro enorme agarrado à porta. Dá voltas, pousa de um lado, do outro e vem à porta novamente. Antes de tomar o café, ela decide sair. Zenilda mora em um sítio próximo e deu à luz há poucos dias. Está ainda na cama, com algumas complicações. Ninguém sabe o motivo.  O marido trabalha na roça e Inês vai todos os dias, preparar o almoço e cuidar do bebê. Melhor ir logo cedo hoje, assim ficará longe do pássaro insistente. A casa é de taipa. A porta da cozinha é fechada apenas com meia porta de tábuas irregulares. Para os porcos e galinhas não entrarem. Por ali não há grandes perigos. O cachorro da casa está agitado, do lado de fora, e vem ao seu encontro e volta para a porta algumas vezes. O marido já se foi para o trabalho. Inês entra correndo, já o coração apertado. Apanha uma faca na cozinha, a vassoura, e entra no quarto. Custa a sustentar-se nas pernas diante da cena. Segura o grito na garganta seca. É preciso cautela. Zenilda dorme, com a camisa aberta, e o bebê dorme ao seu lado, após a mamada. Já com metade do corpo reluzente sobre a cama, ela vê a enorme cobra preta.

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