Inês não é assim. É apenas uma mulher comum, não sabe nada
dos mistérios da vida e não quer saber. Tem medo de alma, de assombração. Cuida
de sua vidinha e pronto. Está de bom tamanho. Mas anda percebendo alguns
sinais. Pássaros agourentos cantam perto de sua casa, borboletas entram e
pousam em sua mão. Se algum bicho peçonhento se aproxima, assustada manda
embora e eles viram-se e vão. E ela diz, toda prosa, ora, eles sabem quem manda
aqui. Agora é isso. Um pássaro enorme agarrado à porta. Dá voltas, pousa de um
lado, do outro e vem à porta novamente. Antes de tomar o café, ela decide sair.
Zenilda mora em um sítio próximo e deu à luz há poucos dias. Está ainda na
cama, com algumas complicações. Ninguém sabe o motivo. O marido trabalha na roça e Inês vai todos os
dias, preparar o almoço e cuidar do bebê. Melhor ir logo cedo hoje, assim
ficará longe do pássaro insistente. A casa é de taipa. A porta da cozinha é
fechada apenas com meia porta de tábuas irregulares. Para os porcos e galinhas
não entrarem. Por ali não há grandes perigos. O cachorro da casa está agitado,
do lado de fora, e vem ao seu encontro e volta para a porta algumas vezes. O
marido já se foi para o trabalho. Inês entra correndo, já o coração apertado.
Apanha uma faca na cozinha, a vassoura, e entra no quarto. Custa a sustentar-se
nas pernas diante da cena. Segura o grito na garganta seca. É preciso cautela.
Zenilda dorme, com a camisa aberta, e o bebê dorme ao seu lado, após a mamada.
Já com metade do corpo reluzente sobre a cama, ela vê a enorme cobra preta.
sexta-feira, 18 de março de 2016
Inês
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