Fiz o
trajeto entre a igreja e a praça umas dez vezes. Olho cada canto e não a vejo.
Olho o relógio no alto da torre. São oito horas. As badaladas ainda ressoam no
ar. Tudo bem, cheguei cedo. Sempre faço
isso e fico aflita quando as pessoas que espero não são pontuais. Agora tenho
mais pressa ainda e ela não chega. Abro a bolsa para pegar um cigarro e
lembro-me de tê-los jogado na lixeira do consultório. Levo a unha à boca e
desfaço o gesto, assustada. Não, não vou começar outro vício agora. Algumas
crianças brincam ainda enquanto as mães conversam uma coisa e outra para passar
o tempo. O resfriado de um, a queda de outro, uma viagem repentina do marido, a
empregada não limpou direito. Chego a invejar aquela simplicidade. Minha cabeça
ferve com assuntos graves e elas falam do preço da carne. Nem sei se estarei
viva na próxima vez em que forem ao açougue. Chuto a pedra solta da calçada e
volto ao compasso dos passos rumo à igreja. A missa terminou. As pessoas saem
aos pares, aos bandos e sinto um ombro chocando com o meu. Desculpa. Não foi
nada. Nada mesmo? Você está pálida. É a luz da rua. Não, deve ser algo sério.
Sou médico, deixe-me ajudar. Olho para um lado e outro e avisto Claudine
acenando da praça. Minha amiga chegou, obrigada. Leve meu cartão. Atravesso a
praça correndo e isso traz alguma cor ao rosto. Ela quer saber o motivo de
tanta aflição e não sei como contar-lhe. São tantos anos de amizade, tantos
planos, tantos sonhos. Lembra da nossa viagem a Lisboa? Gostaria de voltar lá
para comer aquele bacalhau com natas preparado pelo Manoel Correia. Ele quase
não te deixa voltar. E gostaria de ir também à Grécia. Às vezes penso ter
perdido um dedinho lá, numa época remota. As crianças estão bem? O Jorge,
quando volta? Aquela sua promoção no trabalho, sai ou não sai? Isolda, você tem
algo para me contar. Nada importante. Sabe aquele vestido de seda, no Shopping?
Comprei. Para que serve o dinheiro? Para realizar desejos. Isolda, olha para
mim. Para com isso e conta. Conheço você e tem algo sério acontecendo. Ele foi
embora? Desistiu do casamento? E o projeto, como fica? Não, não foi isso. Coloco
a mão no bolso e encontro o cartão que o médico me deu há pouco e quase joguei
na lixeira da igreja, sem ao menos olhar. Leio em voz alta. Doutor João Carlos
Freitas. Oncologista.
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