sexta-feira, 11 de março de 2016

Isolda


Fiz o trajeto entre a igreja e a praça umas dez vezes. Olho cada canto e não a vejo. Olho o relógio no alto da torre. São oito horas. As badaladas ainda ressoam no ar. Tudo bem, cheguei cedo.  Sempre faço isso e fico aflita quando as pessoas que espero não são pontuais. Agora tenho mais pressa ainda e ela não chega. Abro a bolsa para pegar um cigarro e lembro-me de tê-los jogado na lixeira do consultório. Levo a unha à boca e desfaço o gesto, assustada. Não, não vou começar outro vício agora. Algumas crianças brincam ainda enquanto as mães conversam uma coisa e outra para passar o tempo. O resfriado de um, a queda de outro, uma viagem repentina do marido, a empregada não limpou direito. Chego a invejar aquela simplicidade. Minha cabeça ferve com assuntos graves e elas falam do preço da carne. Nem sei se estarei viva na próxima vez em que forem ao açougue. Chuto a pedra solta da calçada e volto ao compasso dos passos rumo à igreja. A missa terminou. As pessoas saem aos pares, aos bandos e sinto um ombro chocando com o meu. Desculpa. Não foi nada. Nada mesmo? Você está pálida. É a luz da rua. Não, deve ser algo sério. Sou médico, deixe-me ajudar. Olho para um lado e outro e avisto Claudine acenando da praça. Minha amiga chegou, obrigada. Leve meu cartão. Atravesso a praça correndo e isso traz alguma cor ao rosto. Ela quer saber o motivo de tanta aflição e não sei como contar-lhe. São tantos anos de amizade, tantos planos, tantos sonhos. Lembra da nossa viagem a Lisboa? Gostaria de voltar lá para comer aquele bacalhau com natas preparado pelo Manoel Correia. Ele quase não te deixa voltar. E gostaria de ir também à Grécia. Às vezes penso ter perdido um dedinho lá, numa época remota. As crianças estão bem? O Jorge, quando volta? Aquela sua promoção no trabalho, sai ou não sai? Isolda, você tem algo para me contar. Nada importante. Sabe aquele vestido de seda, no Shopping? Comprei. Para que serve o dinheiro? Para realizar desejos. Isolda, olha para mim. Para com isso e conta. Conheço você e tem algo sério acontecendo. Ele foi embora? Desistiu do casamento? E o projeto, como fica? Não, não foi isso. Coloco a mão no bolso e encontro o cartão que o médico me deu há pouco e quase joguei na lixeira da igreja, sem ao menos olhar. Leio em voz alta. Doutor João Carlos Freitas. Oncologista.

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