sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O grito

Caminho pela calçada da Rua das Flores como faço todos os dias às cinco e trinta da tarde. Uma hora de caminhada para ver o dia se despedir na beira do rio. É minha meditação diária. Ajuda a digerir todas as impressões gravadas na alma e guardadas no estômago. Há menos pessoas na rua hoje. Estranho a falta de Dona Carmen, a espanhola, andando no sentido oposto com seus poodles. Não se sabe muito dela. Apenas que vive sozinha, gosta de cães e tem renda suficiente para viver tranquila. Sorri, diz boa tarde e ralha com seus pequenos amigos enquanto eles latem para mim. Tive um sonho estranho onde via muitas mãos sujas de sangue. Acordei com um grito. Lá vem Seu Juvenal, num andar descompassado, batendo com a bengala na calçada. Está sempre sorrindo, caso encontre alguém. Digo boa tarde, Seu Juvenal, e ele responde alargando o sorriso. Derramei café na minha toalha preferida. Amanhã passo na lavanderia. Marta passa, apressada, com pães e bolos para o jantar dos patrões. Tem trinta anos e trabalha para a família Nogueira há quinze. Dizem que tem um namorado. Dizem que é mentira. Alguns falam de uma relação pecaminosa. Outros, de um ser alienígena. Não sei. Todos os dias busca o pão. Com olhar sempre no chão, anda mais rápido hoje. A mão direita enrolada no pano da saia longa. Um arrepio me corre a espinha. Não cumprimenta ninguém. Não consegui terminar a revisão para a Revista Clavícula. Foi um tropeço. Não entregaram as fotos para o fechamento. Falo com eles amanhã cedo. Um grupo de jovens cruza a rua, na volta da escola, com seu riso solto sacudindo a tarde. Viram a esquina rumo à lanchonete. Avisto a pequena ponte sobre o rio. De madeira trabalhada, feita pelos moradores para festejar o centenário da cidade. O sol se aproxima do horizonte e apresso o passo para vê-lo ainda nas águas. Debruço-me sobre a ponte e deixo o olhar se alongar até onde o leito some na curva. Aqui já não quero pensar, apenas deslizar sobre a vida, sobre as nuvens laranjas e azuis se misturando em magenta. Promessa de frio. Uma brisa sopra pelas minhas costas e com ela vem um gemido de cão, baixinho. Olho para a margem, lá embaixo e vejo os pequenos poodles de dona Carmen amarrados a um arbusto. Na minha garganta um grito se solta.

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