Caminho pela calçada da Rua das Flores como faço todos os
dias às cinco e trinta da tarde. Uma hora de caminhada para ver o dia se
despedir na beira do rio. É minha meditação diária. Ajuda a digerir todas as
impressões gravadas na alma e guardadas no estômago. Há menos pessoas na rua
hoje. Estranho a falta de Dona Carmen, a espanhola, andando no sentido oposto
com seus poodles. Não se sabe muito dela. Apenas que vive sozinha, gosta de
cães e tem renda suficiente para viver tranquila. Sorri, diz boa tarde e ralha
com seus pequenos amigos enquanto eles latem para mim. Tive um sonho estranho
onde via muitas mãos sujas de sangue. Acordei com um grito. Lá vem Seu Juvenal,
num andar descompassado, batendo com a bengala na calçada. Está sempre
sorrindo, caso encontre alguém. Digo boa tarde, Seu Juvenal, e ele responde
alargando o sorriso. Derramei café na minha toalha preferida. Amanhã passo na
lavanderia. Marta passa, apressada, com pães e bolos para o jantar dos patrões.
Tem trinta anos e trabalha para a família Nogueira há quinze. Dizem que tem um
namorado. Dizem que é mentira. Alguns falam de uma relação pecaminosa. Outros,
de um ser alienígena. Não sei. Todos os dias busca o pão. Com olhar sempre no
chão, anda mais rápido hoje. A mão direita enrolada no pano da saia longa. Um
arrepio me corre a espinha. Não cumprimenta ninguém. Não consegui terminar a
revisão para a Revista Clavícula. Foi um tropeço. Não entregaram as fotos para
o fechamento. Falo com eles amanhã cedo. Um grupo de jovens cruza a rua, na volta
da escola, com seu riso solto sacudindo a tarde. Viram a esquina rumo à
lanchonete. Avisto a pequena ponte sobre o rio. De madeira trabalhada, feita
pelos moradores para festejar o centenário da cidade. O sol se aproxima do
horizonte e apresso o passo para vê-lo ainda nas águas. Debruço-me sobre a
ponte e deixo o olhar se alongar até onde o leito some na curva. Aqui já não
quero pensar, apenas deslizar sobre a vida, sobre as nuvens laranjas e azuis se
misturando em magenta. Promessa de frio. Uma brisa sopra pelas minhas costas e
com ela vem um gemido de cão, baixinho. Olho para a margem, lá embaixo e vejo
os pequenos poodles de dona Carmen amarrados a um arbusto. Na minha garganta um
grito se solta.
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