sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Casa com vista


Clara abre a porta. Vai regar as flores, uma das tarefas mais prazerosas do momento. Abaixa-se para pegar a mangueira e quando se ergue leva um susto. Vê um homem parado na frente da casa, olhando como se tivesse perdido um pouco da consciência. Como aconteceu com ela quando seu carro foi parar no meio do canteiro e ela não se lembrava de nada.
Estatura mediana, forte, cabelos claros e um tanto crescidos. Muitas tatuagens nos braços. Os olhos, verdes, estão cheios dos sons da água corrente. Mãos fortes, mas delicadas. Trinta e cinco anos?  Meu Deus! Rapidamente ela faz a ficha inicial.
Procura casa para alugar. Trabalho de um lado, a filha do outro. Aqui é meio tempo entre os dois.
- Já vi algumas casas, mas nenhuma delas tem a exata medida da minha necessidade. Uma vista para o poente. Preciso ver que as coisas mergulham e vão, deixando outras virem atrás de si. Como o sol, a cada dia. Esta casa tem isso, uma linda vista do entardecer.
-Sim.  Eu escolhi. Cozinha-se, no verão, apenas com o calor do sol. Comida viva! Conhece? - diz Clara, rindo. Ainda precisam crescer algumas árvores desse lado. Já plantei uma ali.
-Gosto muito de calor. Preciso dele.
- E o vento sul atravessa a varanda com a desfaçatez de quem se sente o dono.
-Dependo dele; sou paraquedista.
-Uau! Sempre sonhei em pular de paraquedas, mas devo ter-me esquecido de colocar na lista de desejos antes de descer no bico da cegonha. Por que não se pode descer de paraquedas?
Enquanto conversam, ele anda em volta da casa e Clara o segue, meio sem saber o que fazer. Gosta da cor da parede e fica parado olhando para a roseira no canto do jardim.
- Uma porta aqui, dando para o jardim, ficaria perfeita. Uma mesa para o café da manhã a dois. Do outro lado, ao sol poente, um deck, de onde se possa vê-lo partir a cada dia.
- Sim, é minha intenção, no futuro.
- Não está alugando? Ouvi alguma coisa.
-Apenas por um mês. Só as férias. Está tudo incerto ainda.
Ela pega um vaso para mudar de lugar e ele se apressa em ajudar.  Sente suas mãos. Mãos fortes, como ela sempre procurou. Mãos acostumadas a segurar cordas, ou pequenos fios de vida, nas alturas. Inspiram segurança, esses calos, essa pele áspera e queimada de sol.
-Como é seu nome mesmo? Everton?
-Jackson.
-Jackson. Pois é, Jackson. Não tenho ainda um roteiro definido. Também não sei se volto depois das férias ou se fico por lá. Este é um momento de bifurcações.      
-Vamos fazer assim: você aluga por um mês e depois, se quiser voltar, podemos nos entender. Não me importo de dividir a casa com você.  Estou acostumado com isso. Se não se importar.
- Hã... Hummm... Sim. Não! Talvez. Sim, você fica por um mês. Talvez possamos dividir a casa depois. Por que não?

Acertam detalhes e Jackson vai embora. Meio de costas, sem querer soltar o olhar de Clara, que o segue, limpando as mãos no avental. Assim disfarça a vontade de ficar acenando abobada, até ele sumir na esquina.

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