Tenho um carinho especial pelo outono. Esse tempo é e deixa de ser a cada momento. Nos recolhe e nos deixa ao léu. Tempo de espera, de incertezas. Chega de mansinho e vai entrando, sem pedir licença. Sopra um segredo ao ouvido, traz de longe uma canção há muito esquecida. De repente estamos naquele sofá, junto à janela, fotografias amareladas pelo tempo, em busca de qualquer coisa do passado como um fio, ao menos, que nos impeça de naufragar no presente.
A cada
ano fico na espreita para sentir sua primeira brisa, sua primeira carícia em
minha pele. Nesse momento em que começamos a pegar nossos agasalhos, envolver
nossos pescoços com cachecóis macios, a tirar os cobertores do armário e a
recolher nossas almas ao universo interior, meu desejo é montar no vento e
correr mundo, correr tempo, espalhar minha alma sobre os campos de capim “rabo
de rato” da minha cidade.
Um
campo roxo e aveludado convidava, inspirava ideias loucas na minha
adolescência. Ali meus sonhos voavam com o vento, brincavam de amarelinha,
andavam pelos jardins de palácios, ao lado de príncipes encantadores. Os amores eram possíveis e não havia o medo da
solidão. Cavalgava pelo deserto fugindo das sombras de guerreiros nômades. Doía
em meu peito uma saudade imensa e eu queria ir...
Já não dói mais, essa saudade. Aquietou-se em alguma veia gasta pelo tempo, deixando um vazio cálido e um gosto de ferrugem na boca. Esse vazio cresce ainda quando sobra a primeira brisa do duplo outono, aqui, em terra distante, onde não vejo o roxo manto do meu sonho, o suave veludo onde guardei meus anos dourados.
Já não dói mais, essa saudade. Aquietou-se em alguma veia gasta pelo tempo, deixando um vazio cálido e um gosto de ferrugem na boca. Esse vazio cresce ainda quando sobra a primeira brisa do duplo outono, aqui, em terra distante, onde não vejo o roxo manto do meu sonho, o suave veludo onde guardei meus anos dourados.
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