Ele chegara havia alguns dias. Nem alegre nem triste.
Falava pouco, ouvia muito. A máquina fotográfica na mão, à espreita. A praia
pequena, em forma de concha, acolhia seus passos por todo o dia. Com a
paciência de quem espera uma estrela cair do céu ao mar, bem aos seus pés, ele
esperava. Esperava a flor se abrir até o momento em que a abelha escorregava
para dentro do cálice perfumado. Esperava o raio de sol atravessar a folhagem
de uma árvore e alcançar o ângulo desejado, quando cintilava a gota de orvalho
a pender da manhã recém-nascida. Esperava a formiga com seu fardo alcançar o
topo de uma pedra ou folha seca e, deitado sobre a grama, aprisionava-lhe o
gesto de supremo esforço. Esperava a sabiá que descia da cumeeira, incansável,
em busca de alimento para os bicos insaciáveis de seus filhotes.
Às vezes dormia horas numa sombra na praia. Ou sumia o
dia inteiro andando pelas trilhas da floresta. Nesses dias jantava bem. Gostava
de peixe e de um copo de vinho. Pela manhã, muita fruta, que as frutas daqui são
as melhores! Ensinou aos moleques muitas brincadeiras. Ensinou a fazer a horta.
Um leve sorriso aqui e ali.
Riso mesmo, não
tinha não. Coração vazio. Se está cheio vaza pela boca. Não se contém. Vai se
derramando por onde passa.
E a moça dos olhos grandes chegou. Com a mala de quem
deixou adeus nalgum canto deste mundão. Entrou, pediu um quarto e um copo
d’água. Deitou-se numa rede e lá ficou a cantarolar alguma coisa triste.
Dormiu.
O moço voltou à tardinha e ela ainda dormia. Ele olhou,
estranhou, chegou perto para ver melhor. Afastou-se, sentou no chão e ficou
ali, olhando, até ela abrir os olhos. Não era temporada, não havia outros
hóspedes. Fiquei no meu canto, estatua de enfeite.
E eu vi. Vi seu
peito se encher de ar algumas vezes e quando exalava era um sorriso que se
derramava pelo salão.
No dia seguinte ele não trouxe a máquina. Não dormiu, não
caminhou. Apenas riu. De cada gesto da moça, cada palavra, ele ria e se
encantava.
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